Resumo: Propósito do Trabalho: As ações afirmativas para o ingresso no ensino superior no Brasil têm se ampliado, e se dão de diferentes formas, seja pelo sistema de cotas ou através de sistemas de bonificação na pontuação dos vestibulares, como o Programa de Inclusão Social da Universidade de São Paulo (INCLUSP/PASUSP).
As discussões a respeito de ações afirmativas voltadas para o ensino superior em cenário nacional iniciaram-se após 2002, quando as universidades estaduais do Rio de Janeiro adotaram o primeiro sistema de cotas. Uma das principais preocupações em relação às ações afirmativas é a queda da qualidade do ensino já que os alunos cotistas costumam ter uma educação básica de menor qualidade e, supostamente, não acompanhariam o desenvolvimento dos demais alunos.
Dessa forma, diversos estudos têm se desenvolvido na área, principalmente para analisar se existe diferença do rendimento escolar entre alunos contemplados ou não pelas ações afirmativas. Porém, observam-se poucos estudos que analisem especificamente o rendimento acadêmico dos alunos dos cursos de Ciências Contábeis, e também de trabalho que analisem o sistema de bonificação da USP, dessa forma, o presente estudo se propôs a analisar se há diferença entre o rendimento escolar dos alunos beneficiados ou não com o sistema de bonificação no vestibular da USP, especificamente do curso de Ciências Contábeis da FEARP-USP.
Para alcançar este objetivo foram analisadas as médias de 11 disciplinas do primeiro ano do curso de ciências contábeis da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEARP) e realizados testes estatísticos para analisar possíveis diferenças entre os alunos pesquisados.
Base da plataforma teórica: Atualmente no Brasil a maioria das universidades adota alguma ação afirmativa e segundo Bezerra e Gurgel (2012, p.5) elas visam, antes de tudo, torná-la um lugar público, ao qual todos os brasileiros possam ter acesso. Buscam, ainda, tornar uma igualdade de direito, em igualdade de fato.
Pinheiro (2014) afirma que as principais preocupações em relação às ações afirmativas são a diminuição do ingresso de não cotistas, a queda da qualidade do ensino já que os alunos cotistas costumam ter uma educação de menor qualidade.
Pesquisas que abordam a adoção de ações afirmativas iniciaram-se a partir de 2002. Os estudos costumam discutir e analisar o desempenho acadêmico dos alunos beneficiados pelas ações afirmativas e a evasão destes. Sobre o assunto de desempenho, destacam-se os seguintes trabalhos:
a) Bezerra e Gurgel (2012) estudaram o desempenho dos alunos da UERJ no período de 2005 e 2006 em cinco cursos. Os resultados demonstram que o desempenho no vestibular dos alunos cotistas é inferior ao dos não-cotistas.
b) Mendes Junior (2014) analisou os alunos de 43 cursos da UERJ no período de 2009 a 2011. Os resultados inferem que os alunos não cotistas apresentam rendimento superior aos cotistas e que esta diferença aumenta de acordo com a dificuldade relativa do curso.
c) Peixoto et. al. (2013) compararam o desempenho dos alunos na UFBA. Os resultados apontam que os alunos que não se beneficiaram das cotas apresentam rendimento acadêmico superior, contudo, quando segregados por área do conhecimento os alunos cotistas da área de humanidades tem rendimento superior.
d) Cardoso (2008) avaliou o rendimento dos ingressantes em 2006 na UNB. A análise dos dados indicou que nos cursos de maior prestígio os alunos que entraram pelo sistema universal tiveram médias superiores nas áreas de humanidades, ciências e saúde. Já nos cursos de menor prestígio a média dos alunos cotistas foi superior nas áreas humanidades e ciências.
e) Matos et. al. (2010) analisaram as médias de alunos do primeiro ano da UEL no ano de 2005. A média de todos os alunos foi 7,31 e não houve diferença significativa de médias entre os alunos cotistas e não cotistas.
f) Dallabona e Schiefler Filho (2011) avaliaram as médias de alunos ingressantes entre 2008 e 2010 da UTFPR. Considerando os 20 cursos analisados, em apenas seis deles os alunos não cotistas tiveram média superior, e em 14 os alunos cotistas tiveram desempenho superior.
g) Golgher, Amaral e Neves (2014) analisaram ingressantes da UFMG em 2009 e 2010. Os resultados apontam que a diferença entre os grupos é pequena ou, como na maior parte das vezes, nula. Ressalta-se que este é o único trabalho que aponta informações de alunos de Ciências Contábeis. Neste caso, observa-se que não há diferença significativa de rendimento, entre alunos cotistas e não cotistas, do curso de Ciências Contábeis.
A USP não adota sistemas de cotas, mas dois sistemas de bonificação aos alunos de escola pública denominados INCLUSP e PASUSP.
Nabeshima et. al. (2011) investigaram o desempenho dos alunos que receberam ou não a bonificação no curso de odontologia da USP entre 2007 e 2010. O estudo aponta que o desempenho dos dois grupos de alunos é semelhante, contudo o desempenho dos alunos bonificados do curso integral nas disciplinas específicas foi superior ao desempenho destes nas disciplinas básicas.
Matos et. al. (2012) analisaram o desempenho acadêmico de alunos ingressantes de 2010 da USP, e apontam que a média dos ingressantes via bonificação foi igual ou superior a média da universidade em 64 dos 118 cursos oferecidos.
Método de investigação: O delineamento desta pesquisa está baseado na tipologia proposta por Beuren (2006). Dessa forma, quanto aos objetivos essa é uma pesquisa descritiva, e quanto à abordagem do problema é uma pesquisa quantitativa.
O estudo tem o objetivo de verificar se há a diferença de desempenho entre os alunos de ciências contábeis beneficiários do programa de inclusão social e os alunos não beneficiários durante o período de 2010 a 2014. Para tal foram coletadas as médias de 11 disciplinas do primeiro ano do curso de ciências contábeis da FEARP-USP.
A análise das disciplinas foi efetuada segundo as seguintes variáveis:
(i) Média dos alunos com ou sem bonificações no vestibular, através dos sistemas INCLUSP e PASUSP: a análise foi feita com a média suja (com reprovações) e limpa (sem reprovações). A média para aprovação em disciplina na Universidade de São Paulo é 5,0. Foi ainda efetuada uma análise não por disciplina, mas pelo ano de entrada;
(ii) Classificação no vestibular: o curso oferece 45 vagas. Usou-se como ponto de quebra a classificação 23, ou seja, os classificados até a 23ª posição serão o primeiro grupo e da 24ª em diante o segundo grupo;
(iii) Mescla das duas primeiras a partir da análise dos alunos com e sem bonificação, a partir do grupamento de classificação no vestibular;
(iv) Diferenças em termos de número de aprovações.
Para avaliar possíveis diferenças de média entre os alunos foi utilizado o teste de médias de Mann-Whitney com nível de confiança de 95%, que comparou pelos grupamentos já apresentados anteriormente.
CONSTRUÇÃO DA BASE DE DADOS
Como há bastante movimentação de alunos dentro da USP por meio de transferências internas, reentradas por vestibular, entre outros, a base de alunos para a pesquisa foi elaborada de acordo com as seguintes premissas:
a) Alunos que tiveram reentrada no próprio curso, por um segundo vestibular;
b) Alunos que reentraram no vestibular, mas que eram oriundos do curso e Economia Empresarial e Controladoria;
c) Alunos que entraram por transferência interna ou externa;
d) Foram excluídos os alunos que abandonaram o curso antes do fim do primeiro semestre.
Assim, a base final foi composta por 218 alunos, sendo 154 sem bonificação e 64 com bonificação. Para análise do desempenho acadêmico destes alunos foram analisadas 2074 notas de disciplinas, sendo 1414 de alunos sem bonificação e 660 de alunos com bonificação.
Resultados, conclusões e suas implicações: As análises de médias de disciplinas foram efetuadas por todo período de análise, e não por ano, visto o baixo número de dados. A primeira análise de médias foi feita em relação a cada uma das 11 disciplinas. Observa-se que apenas nas disciplinas Sociologia (DISC6) e Direito (DISC7) não foi encontrada alguma diferença significativa de médias em relação às variáveis analisadas.
Na comparação entre alunos com e sem bonificação, apenas na média suja (com reprovações) da Análise de Sistemas (DISC10) foi observada diferença significativa, e os alunos com bonificação tiveram média superior.
Já ao analisar a classificação no vestibular, observa-se que apenas nas disciplinas Informática (DISC4), DISC6 e DISC7 não são observadas diferença significativa, enquanto nas médias sujas das disciplinas Teoria da Administração (DISC5) e Cálculo (DISC2) a média do aluno com classificação acima de 23 foi melhor que as dos alunos com classificação até 23. Nas médias limpas (sem reprovação), todos os alunos com classificação até 23 tiveram média superior.
Ao se analisar a média dos alunos com classificação até 23, com e sem bonificação, não é observada qualquer diferença significativa. Já ao se analisar os alunos com classificação acima de 23, são observadas diferenças significativas nas médias sujas das disciplinas DISC2, DISC4 e DISC10, e na média limpa apenas na disciplina DISC4. Na disciplina DISC2 os alunos com bonificação tiveram média inferior, e nas disciplinas DISC4 e DISC10 os alunos com bonificação tiveram média superior.
Na avaliação das médias por semestre e anual, as principais diferenças que foram encontradas na análise da classificação do vestibular, ou seja, os alunos com classificação de vestibular até 23ª colocação têm médias superiores aos com classificação inferior, tanto no primeiro como no segundo semestre, sendo a média suja ou limpa.
Observa-se diferença significativa, na média anual limpa, com observação de média superior entre os alunos com bonificação. E na média anual limpa dos alunos com classificação do vestibular acima de 23 os alunos bonificados tem média superior.
Ressalta-se que a análise da média suja, considerando-se nível de confiança de 95% não apresentou diferença, mas ao considerar nível de confiança de 90% haveria diferença significativa, e novamente os alunos com bonificação teriam melhor rendimento médio.
Ao se analisar o resultado dos alunos por ano de entrada, em quase todos os períodos foram encontradas diferenças significativas de média. Em 2010 na média suja os alunos sem bonificação tiveram média superior. Porém entre 2012 e 2014 ocorreram diferenças significativas, tanto em média suja como em média limpa, e em todos períodos a média do aluno bonificado foi superior.
Considerando a média suja dos alunos durante o ano inteiro, o resultado encontrado corrobora com o estudo de Golgher et al (2014) em que não é observada diferença significativa entre alunos do curso de Ciências Contábeis.
Ao fim de cada disciplina, o aluno pode estar aprovado ou reprovado. As diferenças de aprovação analisadas e os dados encontrados reforçam alguns dos achados apresentados anteriormente, onde observa-se também que os alunos com melhores classificações no vestibular, também têm maior índice de aprovação nas disciplinas.
No que se refere aos alunos com e sem bonificação, observa-se diferenças apenas nos anos de 2010 e 2011, sendo que no ano de 2010 os melhores resultados são dos alunos sem bonificação, e no ano de 2011 os alunos com bonificação tiveram maior taxa de aprovação.
A análise dos dados demonstrou que o fato do ingressante, do curso de Ciências Contábeis da FEARP-USP, ter alguma bonificação não o torna um aluno com menor rendimento escolar. Além de ter um rendimento acadêmico adequado à universidade em muitos momentos a análise dos dados demonstra que ele pode ter rendimento superior aos alunos que não tiveram bonificação no vestibular, dado que acaba por se refletir e validar na análise por semestre e anual.
O que realmente influencia o rendimento escolar na Universidade é a classificação no vestibular do ingressante, independentemente de o mesmo ter sido beneficiado com a bonificação.
Referências bibliográficas: Bezerra, T. O. C., & Gurgel, C. R. M. (2012). A política pública de cotas na UERJ: desempenho e inclusão. Anais do Encontro Nacional de Administração Pública e Governança: Vol. 5.(pp. 1-16). Salvador: Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Administração.
Cardoso, C.B. (2008). Efeitos da política de cotas na Universidade de Brasília: uma análise do rendimento e da evasão. Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil
Dallabona, C. A. (2011) Desempenho acadêmico de estudantes oriundos de escolas públicas: cursos de graduação do campus Curitiba da UTFPR. Anais do XXXIX Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia. Blumenau, SC, Brasil.
Golgher, A. B.; Amaral, E. F. L., & Neves, A. V. C. (2014). Avaliação de impacto do bônus sociorracial da UFMG no desempenho acadêmico dos estudante. Mediações, 19 (1), 214-248.
Matos, M. S., Pimenta, S. G., Almeida, M. I., & Oliveira, M. A. C. (2012) O impacto do Programa de Inclusão Social da Universidade de São Paulo no acesso de estudantes de escola pública ao ensino superior público gratuito. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 93 (235), 720-742.
Matos, L.M.S.; Ferreira,W.; Pinheiro, A.C.D.; & Dalmas, J.C. (2010) Avaliação do Sistema de Cotas para Estudantes Oriundos de Escolas Públicas e Afrodescendentes na Universidade Estadual de Londrina. Anais do I Seminário de políticas públicas no Paraná: escola de governo e universidades estaduais. Curitiba, PR, Brasil.
Mendes Jr, A. A. F. (2014) Uma análise da progressão dos alunos cotistas sob a primeira ação afirmativa brasileira no ensino superior: o caso da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ensaio: avaliação de política públicas em educação, 22(82), p. 31-56.
Nabeshima, C. K.; Machado, M. E. L.; Martins, G. H. R.; Coto, N. P.; & Dias, R. B. (2011). Análise do programa INCLUSP através do desempenho escolar, visando disciplinas básicas e específicas. Revista de Pós Graduação, 18 (4), 219-233.
Peixoto, A. L. A., Ribeiro, E. M. B. A., Bastos, A. V. B., & Ramalho, M. C. K. (2013). Cotas e desempenho acadêmico na UFBA: um estudo a partir dos coeficientes de rendimento. In, Coloquio de Gestión Universitaria em Americas: Vol. 13. (pp. 1-15). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina.
Pinheiro, J. S. S. P. (2014). Desempenho acadêmico e sistema de cotas: um estudo sobre o rendimento dos alunos cotistas e não cotistas da Universidade Federal do Espírito Santo. Dissertação de mestrado não publicada, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, Universidade Federal do Espírito Santo, Espírito Santo, Brasil.
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