Anais do 16º International Conference in Accounting - 16º  2016
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RESUMO DO TRABALHO

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Código: 177

Área Temática: Área III: Contabilidade Financeira

Título: Anomalias de Valor e Sentimento do Investidor: Evidências Empíricas no Mercado Acionário Brasileiro

Resumo:
Propósito do Trabalho:
A premissa de que o sentimento do investidor tem um significativo impacto na determinação do valor dos títulos tem sustentado uma série de estudos que analisam a relação entre retornos e um índice de sentimento do investidor, trazendo indícios de que existe uma influência do sentimento nos preços das ações (Baker & Wurgler, 2006, 2007; Baker, Wurgler & Yuan, 2011; Yu & Yuan, 2011; Stambaugh, Yu & Yuan, 2012; Yu, 2013). Ademais, as anomalias de mercado podem ser compostas tanto de componentes relacionados ao prêmio pelo risco, quanto de componentes relacionados a erros de precificação ocasionados por expectativas não racionais e, assim, o índice de sentimento pode ter um papel importante em explicar parte dos mispricings. Diante dessas evidências empíricas, este trabalho teve como propósito verificar se existe relação entre o sentimento do investidor e as anomalias de valor no mercado de capitais brasileiro. Para alcançar o objetivo geral, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: construir um índice de sentimento do investidor para o Brasil, conforme proxies utilizadas por Baker, Wurgler (2006, 2007); inquirir se o índice de sentimento do investidor é capaz de influenciar o retorno de carteiras formadas conforme estratégias Long-Short baseada em anomalias de valor; examinar a relação entre o índice de sentimento do investidor e os retornos de carteiras formadas conforme estratégias Long-Short; analisar o desempenho das carteiras formadas conforme estratégias Long-Short, comparando períodos de alto e de baixo índice de sentimento do investidor; e, por fim, comparar o desempenho da posição comprada (long) com o da posição vendida (short) das carteiras formadas conforme estratégias Long-Short baseadas em anomalias.

Base da plataforma teórica:
Evidências empíricas apontam para a possibilidade de o sentimento do investidor conter um vasto componente de mercado com capacidade de influenciar ao mesmo tempo os preços de vários ativos para uma determinada direção (Baker & Wurgler, 2006, 2007; Baker, Wurgler & Yuan, 2011; Yu & Yuan, 2011; Stambaugh, Yu & Yuan, 2012; Yu, 2013). Para Baker e Wurgler (2007), a crescente literatura consolida um consenso de que o sentimento do investidor afeta os preços das ações, direcionando as pesquisas para um novo questionamento, que busca encontrar melhores formas de mensurar o sentimento. A medida mais simples e intuitivamente direta está relacionada à pesquisa de opinião com investidores. No Brasil, o que nos aproxima dessa abordagem é o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Baker e Wurgler (2007) afirmam que medidas de sentimento obtidas por meio de pesquisa de opinião são vistas com ressalvas por economistas, uma vez que existe uma potencial distância entre as respostas dos pesquisados e suas reais atitudes. Outra abordagem consiste em utilizar dados secundários de transações de investidores como proxies para o sentimento. Lee et al. (1991) utilizaram os descontos de fundos fechados (CEFD – Closed End Fund Discount) como uma medida de sentimento, por representar a distorção entre os preços considerados pelos investidores e os preços fundamentais. Entre os trabalhos mais citados na literatura de sentimento está o de Baker e Wurgler (2006), que desenvolveram um índice de sentimento construído a partir da primeira componente principal de seis proxies relacionadas ao comportamento do investidor. Desde então, esse índice tem sido utilizado amplamente em pesquisas empíricas, como medida agregada para o sentimento do investidor no mercado americano. Nesse sentido, tem surgido evidências que encontraram forte relação entre o índice de sentimento e as anomalias de mercado (Antoniou, Doukas & Subrahmanyam, 2010; Stambaugh, Yu & Yuan, 2012). A justificativa teórica é que algumas anomalias podem refletir, ao menos parcialmente, erros de precificação provenientes do viés comportamental de investidores não sofisticados. Apesar de o índice de sentimento influenciar os preços das ações, Stambaugh et al. (2012) apresentaram evidências de que o mispricing (erro de precificação) proveniente do sentimento é assimétrico, ou seja, o overpricing (preço acima do valor fundamental) é maior e mais frequente do que o underpricing (preço abaixo do valor fundamental). O overpricing no mercado acionário pode ocorrer por força de investidores otimistas, que atuam aumentando as ofertas de compra ou, quando já possuem os títulos, segurando suas posições, tornando as ofertas de venda menores do que as ofertas de compra. Já o underpricing tem uma força menor, pois investidores pessimistas podem atuar efetuando operações de venda a descoberto ou, quando já possuem o título, vendendo da forma convencional. Stambaugh et al. (2012) atribuíram seus resultados ao argumento de Miller (1977), o qual preconiza que as restrições às operações de venda a descoberto, tal como o risco adicional, limitam esse tipo de operação e o underpricing poderia ser causado apenas pelo aumento de vendas convencionais de investidores que, devido à perspectiva pessimista, estariam dispostos a fecharem suas posições compradas, o que geralmente não estão. Dessa forma, distorções nos preços causadas por investidores otimistas são mais fortes do que as causadas pelos pessimistas.

Método de investigação:
Na estimação do sentimento do investidor, fez-se uso da técnica multivariada de Análise de Componentes Principais, para captar o componente em comum de quatro diferentes proxies para o comportamento do mercado. O conjunto de proxies selecionadas já foram empregadas em trabalhos anteriores, tais como Brown e Cliff (2004), Baker e Wurgler (2006, 2007) e Yoshinaga et al. (2012), respectivamente aplicados no mercado americano e brasileiro. As proxies selecionadas para compor o índice foram: quantidades de ofertas iniciais públicas, percentual de novas ações emitidas, turnover das ações e a proporção de altas e baixas. Seguindo Baker e Wurgler (2006), o índice foi estimado em três etapas, uma primeira com o intuito de identificar se alguma das proxies reflete o sentimento algum tempo depois das demais, uma segunda etapa apenas com as variáveis identificadas como as melhores, e a última com o objetivo de evitar que o índice reflita informações do ciclo econômico, as proxies selecionadas foram regredidas com variáveis macroeconômicas e então foi realizada uma ACP dos resíduos. Em seguida, foram construídas carteiras conforme as anomalias: tamanho, valor, momento, volatilidade, liquidez, lucro/preço, EBITDA/ativo total, endividamento, growth sales, ROA, asset growth e investimento. Para cada uma das anomalias estudadas, foram formadas carteiras Long-Short com base nos quintis extremos, 1 e 5, com a posição comprada (long) sendo o quintil de alta performance, dependendo do comportamento da anomalia no mercado brasileiro. Conforme Stambaugh et al. (2012), foi ainda formada uma carteira que se posiciona igualmente em todas as estratégias mencionadas, logo o seu retorno mensal foi obtido pela média aritmética de todas as demais carteiras. A forma como sentimento do investidor se relaciona com as anomalias foram testadas empiricamente com a série dos retornos das carteiras de posição long, short e long-short das 12 estratégias baseadas em anomalias, bem como com a série do índice de sentimento construído, e sua variação de um mês para o outro. Seguindo Stambaugh et al. (2012), foi estimado regressões dos retornos em função do índice de sentimento do investidor controladas pelos três fatores de Fama e French (1993) e Cahart (1997). Adicionalmente, foram criadas duas dummies para examinar como períodos de otimismo se diferencia de períodos de pessimismo.

Resultados, conclusões e suas implicações:
Ao testar o poder explicativo do índice nos retornos futuros, a medida do índice de sentimento apresentou poder explicativo para boa parte das anomalias apenas quando incluída no CAPM. Ao controlar pelo modelo de três fatores e de quatro fatores, o coeficiente perde sua significância estatística. Uma possível explicação para esse resultado é que o índice de sentimento contenha características relacionadas aos demais fatores de risco. É importante salientar que foram feitos testes VIF (Variance Inflation Factors) e não foi constatado a existência de multicolineariedade entre os regressores. Na utilização da variação do índice como variável explicativa, foi verificada uma relação com os retornos futuros, robustos a todos os fatores de risco. Constatou-se que a medida do índice de sentimento apresentou poder explicativo para boa parte das anomalias apenas quando incluída no CAPM, porém ao controlar pelo modelo de três fatores e de quatro fatores, o coeficiente perdeu sua significância estatística. Já na utilização da variação do índice como variável explicativa, observou-se uma relação com os retornos futuros, robustos a todos os fatores de risco. Dessa forma, é possível relacionar o índice de sentimento do investidor com os retornos de carteiras formadas com base em anomalias. Na análise dos retornos médios após os períodos de otimismo e pessimismo, apesar de boa parte das anomalias apresentarem o spread entre a média dos retornos após os períodos otimistas e pessimistas com o sinal esperado, indicando uma maior influência do viés otimista, não houve valores estatisticamente significantes suficientes para inferir sobre uma possível existência de restrições às operações de venda a descoberto. Diante dessas evidências, a hipótese de que é possível relacionar o índice de sentimento do investidor com os retornos de carteiras formadas com base em anomalias de valor, não pode ser rejeitada. Entretanto, as hipóteses relacionadas à existência de restrições às operações de venda à descoberto não foram confirmadas pelos testes empíricos. Os resultados obtidos neste trabalho contribuem com a literatura de precificação de ativos e suas anomalias, ao trazer indícios de que essas podem ser explicadas, ao menos em parte, por um componente comportamental. Além disso, as evidências apresentadas demonstram que o número de IPO ocorridos no período, a proporção de emissão de ações e dívidas, o turnover e a proporção de altas e baixa podem ser boas medidas para mensurar o sentimento do investidor em uma base mensal. Em termos de implicações práticas, as evidências relacionadas às diferentes estratégias baseadas em anomalias podem balizar a decisões de gestores de investimento e, por conseguinte, aprimorar a composição e a performance do portfólio. Adicionalmente, por trazer os indícios de que as anomalias refletem em parte um erro de precificação relacionado ao viés comportamental, esta pesquisa pode motivar a busca de políticas que tornem o mercado mais eficiente e, consequentemente, mais atrativo ao capital externo e ao setor produtivo. Contudo, deve-se ter cautela em considerar os resultados desta pesquisa. Em termos de limitações de cunho teórico, salienta-se que existe uma escassez de estudos brasileiros, dificultando a formação de um índice para o Brasil. Ademais, o índice de sentimento no qual esta pesquisa se baseou, apesar de ser amplamente utilizado em pesquisas empíricas internacionais, pode não refletir um desvio nos preços relacionados a um viés comportamental, uma vez que Sibley, Xing e Zhang (2013) sugerem que o poder explicativo do índice de sentimento de Baker e Wurgler (2006) está relacionado a componentes do ciclo econômico ou de fatores de riscos contidos no índice.

Referências bibliográficas:
Baker, M, & Wurgler, J. (2006). Investor sentiment and the cross-section of stock returns. Journal of Finance, 61, 1645–1680. Baker, M, & Wurgler, J. (2007). Investor Sentiment in the Stock Market. Journal of Economic Perspectives, v. 21, n. 2, p. 129 –151. Baker, M., Wurgler, J., & Yuan, Y. (2011). Global, local, and contagious investor sentiment. Journal of Financial Economics, forthcoming. Brown, G. W., & Cliff, M. T. (2004). Investor sentiment and the near-term stock market. Journal of Empirical Finance, 11, 1–27. Stambaugh, R. F., Yu, J., & Yuan, Y. (2012). The Short of It: Investor Sentiment and Anomalies. Journal of Financial Economics, v. 104, pp 288-302. Yoshinaga, C. E., & Castro Junior, F. H. F. (2012). The Relationship between Market Sentiment Index and Stock Rates of Return: a Panel Data Analysis. Brazilian Administration Review, v. 9, n. 2, p. 189-210. Yu, J. (2013). A sentiment-based explanation of the forward premium puzzle. Journal of Monetary Economics, v. 60, 474–491. Yu, J., & Yuan, Y. (2011). Investor sentiment and the mean-variance relation. Journal of Financial Economics, v. 100, 367–381.

 

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