Resumo: Propósito do Trabalho: A princípio, a ideia da adoção de um novo padrão contábil não remeteria à existência de consequências no âmbito fiscal, principalmente quando se considera que o objetivo das IFRS é fornecer informações mais úteis aos usuários em geral e que tal conjunto de normas não objetiva atender a necessidades específicas, como as do fisco. Contudo, alterações nos lucros tributáveis e nas atividades de planejamento tributário, sobretudo nas atividades que aumentam o nível de tax avoidance das companhias, podem ter ocorrido com a adoção das IFRS. Enquanto diversos estudos buscam identificar se há e quais os benefícios informacionais de fato da adoção das IFRS, os efeitos fiscais da adoção deste conjunto de normas são pouco explorados.
O principal objetivo do presente estudo é investigar os efeitos tributários da adoção das IFRS, mais especificamente, os efeitos da adoção das IFRS ao redor do mundo sobre o nível de tax avoidance das companhias. Objetiva-se, ainda, investigar: (i) como se comporta a relação entre a adoção mandatória das IFRS e o nível de tax avoidance em ambientes de alta e baixa book-tax conformity; e (ii) se a adoção das IFRS impacta o engajamento das companhias em tax avoidance por meio do gerenciamento de accruals, por meio de práticas que não envolvem os accruals ou por ambas.
Base da plataforma teórica: Com a adoção das IFRS, países com alto nível de book-tax conformity, os quais utilizavam o Generally Accepted Accounting Principles (GAAP) local como base ou como ponto de partida para o cálculo do lucro tributável e/ou que tinham fortes vínculos entre os lucros contábil e fiscal precisaram definir as regras para elaboração dos relatórios financeiros para fins fiscais. Chan, Lin e Mo (2010), Chan, Lin e Tang (2013), Karampinis e Hevas (2013) e Chen e Gavious (2015) identificaram que após a adoção das IFRS houve um distanciamento entre as regras para elaboração e divulgação das demonstrações financeiras para fins gerais e as regras para elaboração das demonstrações financeiras para fins fiscais, ou seja, houve uma diminuição no nível de book-tax conformity.
Desai (2005), Chan et al. (2010), Atwood et al. (2012), Chan et al. (2013) e Tang (2015) apontam que a diminuição no nível da book-tax conformity aumenta o nível de tax avoidance. Pesquisadores que encontraram essa relação se apoiam principalmente no fato de que os gestores em ambientes de alta conformidade se deparam com o trade-off financeiro-fiscal, em que qualquer decisão de diminuir discricionariamente o lucro fiscal afeta o valor do lucro que será divulgado aos usuários externos. Para esses autores, quando o nível de book-tax conformity diminui os gestores não se deparam com o trade-off financeiro-fiscal, não tendo, assim, uma restrição maior para não divulgarem os lucros da forma mais conveniente para os mesmos (Desai, 2005; Hanlon, Laplante, & Shevlin, 2005; Hanlon & Shevlin, 2005). Uma forte evidência, então, de que a adoção das IFRS pode ter afetado o nível de tax avoidance pode ser identificada por meio de uma relação indireta entre essas duas variáveis, a adoção das IFRS reduziu o nível de book-tax conformity requerido e uma menor book-tax conformity está associada com maior tax avoidance.
Uma outra condição que pode estabelecer uma relação entre a adoção mandatória das IFRS e o aumento no nível de tax avoidance é o possível aumento dos accruals, discricionários e não discricionários, identificado após a adoção das IFRS. Ahmed, Neel e Wang (2013) e Lin, Riccardi e Wang (2012) evidenciaram um aumento na agressividade dos accruals após a adoção das IFRS. Wilson (2009), Frank, Lynch e Rego (2009) e Atwood et al. (2012) identificaram que uma maior agressividade dos accruals está associado a um aumento no tax avoidance. Tendo em vista que a adoção das IFRS está relacionada a uma maior agressividade dos accruals e que alta agressividade dos accruals está positivamente associada a maior nível de tax avoidance, então, a adoção das IFRS pode ter contribuído para o aumento do tax avoidance. Existem, ainda, outras evidências isoladas de que a adoção das IFRS afeta as atividades que aumentam o tax avoidance. Simone (2015) identificou um aumento nas transferências de lucro por motivações tributárias após a adoção mandatória das IFRS. As entidades multinacionais encontram incentivos fiscais para a transferência de lucros de jurisdições com alta carga tributária para jurisdições com baixa carga tributária, o que pode reduzir o passivo tributário (aumentar o tax avoidance) da entidade multinacional no consolidado.
Método de investigação: A amostra do estudo foi selecionada a partir de todas as observações firma-ano, de 1999 até 2014, para as quais haja dados disponíveis nas bases de dados Compustat Global e Compustat North America para computar as variáveis dos modelos utilizados no estudo. Foram excluídas todas as observações de companhias do setor financeiro, pois em diversos países o prazo de adoção das IFRS para esse setor é diferente do prazo de adoção das IFRS para companhias dos demais setores. Foram requeridas pelo menos 20 observações úteis por país-ano. Foram eliminadas todas as observações dos países que não adotaram as IFRS no intervalo do período do estudo (1999-2014) e todas as observações dos países que não estão no estudo de La Porta et al. (1998). A aplicação dos critérios supracitados gerou uma amostra de 41.823, 82.091 e 81.786 (a depender da variável dependente utilizada) observações firma-ano de 35 países.
A delimitação do início do período do estudo se deve ao ano a partir do qual há dados disponíveis sobre a alíquota dos tributos sobre o lucro para os países da amostra. A extensão do período para até 2014 é para incluir no estudo todos os países que já adotaram as IFRS após a adoção pela união europeia.
Foram utilizadas três métricas de tax avoidance. Uma proposta por Atwood et al. (2012) que indica o total do montante de tributos que a companhia é capaz de evitar, em relação ao montante apurado por meio da aplicação da alíquota tributária do país de origem da companhia sobre o lucro antes dos tributos e antes dos itens excepcionais. As outras duas métricas foram baseadas na proposta de Tang (2015) e foram estimadas utilizando-se a diferença entre a taxa dos tributos sobre o lucro do país de origem da empresa e a taxa efetiva da despesa com tributo sobre o lucro corrente, sendo a taxa efetiva da despesa tributária corrente calculada de duas formas: (i) dividindo-se a despesa tributária corrente pelo lucro antes dos tributos e antes dos itens excepcionais; e (ii) dividindo-se a despesa tributária corrente pelo fluxo de caixa operacional.
Resultados, conclusões e suas implicações: Consistente com a hipótese do estudo, a adoção das IFRS é positivamente associada com o tax avoidance, para todas as três formas de mensuração dessa variável. Tal resultado indica que, em média, as companhias passaram a se engajar mais em tax avoidance depois da adoção mandatória das IFRS.
Os resultados evidenciam que a associação positiva entre a adoção das IFRS e o tax avoidance é diferenciada a depender do nível de book-tax conformity. Após a adoção das IFRS, as companhias em países com alto nível de conformidade entre os lucros contábil e fiscal passaram a se engajar mais em tax avoidance do que companhias em países com baixo nível de conformidade. Esse resultado pode ser decorrente de dois fatores. O primeiro fator é que os países que tinham alta book-tax conformity antes da adoção das IFRS foram os que passaram por maiores mudanças quando da adoção do novo padrão contábil, reduzindo em sua maioria o nível de conformidade (Chan, Lin & Mo, 2010; Karampinis & Hevas, 2013; Chan, Lin & Tang, 2013; Chen & Gavious, 2015), o que facilitou o engajamento das companhias desses países em tax avoidance. O segundo fator é que companhias de países com alta book-tax conformity ao se engajarem em tax avoidance tendem a optar por práticas que não geram book-tax differences, como por exemplo a transferência de lucros para jurisdições com menor carga tributária, e a adoção das IFRS facilitou esse tipo de operação. Simone (2015) identificou um aumento médio nas transferências de lucro por motivações tributárias, após a adoção das IFRS, tendo em vista que a adoção de um único padrão contábil por diversos países facilitou esse tipo de atividade. A opção das companhias, em países de alta conformidade, por transações que não geram book-tax differences se deve às suspeitas que uma alta diferença entre o lucro contábil e fiscal levantam acerca da possibilidade de que os lucros tenham sido reportados oportunisticamente (Hanlon, Laplante & Shevlin, 2005).
Os accruals totais são positivamente associados com o tax avoidance, consistente com Atwood et al. (2012), o que indica que parte do tax avoidance é alcançado por meio do aumento dos accruals, seja discricionário ou não discricionário. Os resultados sugerem que a associação positiva entre a adoção das IFRS e o tax avoidance não é dirigida apenas por engajamento em tax avoidance por meio do gerenciamento de accruals, mas também por meio de outros mecanismos, como paraísos fiscais e transferência de lucros.
Tanto a redução na book-tax conformity quanto o aumento nos accruals totais estão associados a um aumento no nível tax avoidance. No entanto, verifica-se que mesmo controlando esses dois fatores, que poderiam explicar a associação entre a adoção das IFRS e o tax avoidance, essas variáveis continuam sendo positivamente associadas. Esse resultado indica que outros fatores, além da redução da conformidade entre os lucros contábil e tributável e do aumento dos accruals, observados após a adoção das IFRS, estão explicando o aumento do engajamento das companhias em tax avoidance após a adoção mandatória das IFRS.
Este estudo contribui para a literatura sobre os determinantes do tax avoidance e tem resultados interessantes para os governos, investidores e demais participantes do mercado na medida em que evidencia um maior engajamento em tax avoidance por parte das companhias após a adoção das IFRS.
Referências bibliográficas: Ahmed, A. S., Neel, M., & Wang, D. (2013). Does mandatory adoption of IFRS improve accounting quality? Preliminary evidence. Contemporary Accounting Research, 30(4), 1344–1372.
Atwood, T. J., Drake, M. S., Myers, J. N., & Myers, L. a. (2012). Home Country Tax System Characteristics and Corporate Tax Avoidance: International Evidence. The Accounting Review, 87(6), 1831–1860.
Chan, K. H., Lin, K. Z., & Mo, P. L. L. (2010). Will a departure from tax-based accounting encourage tax noncompliance? Archival evidence from a transition economy. Journal of Accounting and Economics, 50(1), 58–73.
Chan, K. H., Lin, K. Z., & Tang, F. (2013). Tax Effects of Book-Tax Conformity, Financial Reporting Incentives, and Firm Size. Journal of International Accounting Research, 12(2), 1–25.
Frank, M. M., Lynch, L. J., & Rego, S. O. (2009). Tax Reporting Aggressiveness and Its Relation to Aggressive Financial Reporting. The Accounting Review, 84(2), 467–496.
Hanlon, M., & Heitzman, S. (2010). A review of tax research. Journal of Accounting and Economics, 50(2-3), 127–178.
Simone, L. (2015). Does a common set of accounting standards affect tax-motivated income shifting for multinational firms? Journal of Accounting and Economics, 1–21.
Tang, T. Y. H. (2015). Does Book-Tax Conformity Deter Opportunistic Book and Tax Reporting? An International Analysis. European Accounting Review, 24(3), 441–469.
|