Resumo: Propósito do Trabalho: Diante de anúncios cada vez mais frequentes de reestruturações societárias, essencialmente Fusões e Aquisições (F&As) nos noticiários especializados, as joint ventures aparecem como uma alternativa para empresas que visem aumento de sua eficiência operacional e criação de valor de mercado. No Brasil, o mercado acionário encontra-se consideravelmente concentrado, o que torna mais complexo as operações de F&As, sobretudo em setores como bancário, siderúrgico entre outros (FERREIRA e SERRA, 2015).
Contudo, no Brasil poucas pesquisas foram realizadas para captar a reação do mercado diante de situações joint ventures. Em estudo bibliográfico, Klotzle (2003) teve como foco a formação de alianças estratégicas, incluindo joint ventures, com o objetivo de analisar o impacto dessas alianças no valor do mercado e no desempenho das empresas envolvidas. Dos 17 estudos analisados, apenas 8 estudaram joint ventures, e nenhum estudo focou o mercado brasileiro. Em suas conclusões, o autor salienta que a área deveria ser mais estudada pela comunidade científica brasileira e chama de “evidência surpreendente” a escassez de tais estudos no Brasil.
Diante dessa escassez e da importância do tema, surge a seguinte questão: qual o impacto do anúncio de formação de Joint Venture nas ações de maior liquidez das companhias envolvidas negociadas na BM&FBOVESPA? Logo, o objetivo principal é utilizar a técnica de Estudo de Eventos para captar a reação dos acionistas das empresas envolvidas na formação das joint ventures anunciadas.
Base da plataforma teórica: A formação da primeira joint venture é de natureza desconhecida, porém pesquisadores afiliam a sua criação juntamente com o comercio antigo no mediterrâneo. Estes eram realizados pelos antigos fenícios e assírio-babilônicos e a formação das associações de mercadores de Gênova e Veneza a partir do século XIII, através de formas de negociação das respectivas commenda e colleganza, peculiaridades dessas regiões nessa época. Pois essas cidades eram referenciadas no comercio mundial mediante ao seu contato com mercado oriental de especiarias. (MORO e GLITZ, 2012)
Ademais, este tipo de empreendimento foi mais evidenciado com o advento da Common Law inglesa e fortaleceu-se com a expansão extra-mediterrâneo e consequentemente sendo adotado pelos Estados Unidos da América, colônia da Inglaterra na época.
Eventualmente, a joint venture ganhou a conotação de aventura conjunta, pois era época das grandes navegações onde o objetivo era buscar outra rota para a Índia. Mediante o contrato de navegação, visando auferir lucros com um negócio ultramarino. No entanto há que se notar que a lei inglesa nunca concebeu a joint venture como figura autônoma, independente, sendo assim, assumiu uma característica própria, designada como particularized partneship ou, ainda, special partnership. (MORO e GLITZ, 2012)
Nesta época, foi criado o mecanismo do partnership, onde foi fonte da definição do Partnership Act (1890) e do Uniform Partnership (1914) que preconizou o reconhecimento dos investimentos próprios e comuns entre os sócios, a modo de assegurar o cumprimento das regras entre as partes. (MORO e GLITZ, 2012)
Nos EUA, com o seu desenvolvimento econômico, este método foi desenvolvido durante o século XX, com a Primeira e Segunda Guerra Mundial, houve grandes mudanças no cenário mundial. Os Estados Unidos, agora como maior potência econômica mundial e tendo como plano de fundo a Guerra Fria, houve grande esforço para adotar o modelo de capitalismo norte-americano e consequentemente a cultura vem agregado neste modelo. Portanto a joint venture derivou das partnerships e expandiu internacionalmente como um modelo de empreendimento com uma sociedade com outras entidades. (MORO e GLITZ, 2012)
Conforme o cenário mundial foi modificando e acirrando a concorrência mundial, desde antes do tempo das grandes navegações até hoje. O conceito de joint venture foi acompanhando este desenvolvimento até então tornar-se um empreendimento bastante vantajoso podendo-se unir com outras organizações e tornar uma operação ainda mais interessante do ponto de vista econômico. Pode-se controlar em conjunto, tanto um ativo, operação ou até mesmo uma entidade, além de ser de fácil constituição, não interferindo profundamente no ambiente interno, na cultura e nas políticas internas das controladoras. (LIMA E CARVALHO, 2008)
Em 2009, o Comitê de Pronunciamentos Contábeis, continuando o processo de harmonização às normas internacionais, emite o Pronunciamento Técnico CPC 19 – Investimento em Empreendimento Controlado em Conjunto (Joint Venture). Este pronunciamento foi elaborado em consonância com o IAS 31 – Interest in Joint Ventures emitido pelo International Accounting Standards Board (IASB) pronunciamento que disciplina as regras contábeis relativas às operações desta natureza.
Método de investigação: A pesquisa se caracteriza como positivista, pois procura se fundamentar em evidencias empíricas, ou seja, “parte do pressuposto de que os fenômenos contábeis, cuja existência é pretensamente admitida como autônoma, devem ser descritos tais como se apresentam no “mundo real” (LOPES et al 2009; p 09).
Com base em seus objetivos, a pesquisa classifica-se como descritiva, pois procura descobrir e classificar a relação entre variáveis, bem como se estuda a relação entre as causas e fenômenos. Segundo Richardson (1985, p.30): “Os estudos de natureza descritiva propõem-se a investigar o “que é”, ou seja, a descobrir as características de um fenômeno como tal”.
Ao se classificar a pesquisa com base nos procedimentos técnicos utilizados, a mesma enquadra-se como bibliográfica. A pesquisa foi desenvolvida a partir de análises de trabalhos efetuados por outros autores, como livros e artigos científicos. De acordo com Marconi e Lakatos (2010; p.57): “A pesquisa bibliográfica abrange toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias...”.
Quanto à abordagem, a pesquisa se caracteriza como quantitativa. Segundo Moreira (2002, p. 17): “Este modelo diz o seguinte: o pesquisador parte de quadros conceituais de referência tão bem estruturados quanto possíveis, a partir dos quais formula hipóteses sobre os fenômenos e situações que quer estudar”.
Para operacionalizar a pesquisa, primeiramente, utilizou-se a técnica de estudo de eventos que compreende as seguintes etapas segundo CAMPBELL, LO e MACKINLAY (1997): (1) Definição do Evento; (2) Critério de Seleção; (3) Retornos Normais e Anormais; (4) Procedimento de Estimação; (5) Procedimento de Teste; e (6) Resultados Empíricos.
Resultados, conclusões e suas implicações: Este estudo teve como objetivo verificar a reação dos acionistas das empresas-mães perante anúncios de formação de joint ventures. As operações foram identificadas no sítio específico localizado no site da revista Exame. Por meio de análise de cada anúncio exposto neste site, foram identificadas as operações que realmente se enquadravam conforme disciplina o CPC 19. Utilizando-se da técnica Estudos de Eventos, coletou-se a cotação das ações com mais liquidez das empresas envolvidas em formações de joint ventures de 2013 ate maio de 2015. Para isto foram utilizadas as ações preferenciais, na falta desta, utilizou-se as do tipo UNIT ou Ordinárias (para aquelas que participam do Novo Mercado da BOVESPA). A priori, os anúncios não surtiram reação nos retornos anormais das ações analisadas.
Adicionalmente, testou-se as ações separadamente por tipo, ou seja, um teste para UNIT, outro para as preferenciais e o último teste para ações ordinárias. O teste feito com as ações preferências continuaram sem apresentar diferenças estatisticamente significativas. As ações UNIT apresentaram reação negativa apresentando p-valor de 0,59, ou seja, do teste T de Student houve diferença significativa entre as janelas de estimação e de evento.
Por último, as ações ordinárias também apresentaram reação, porém, desta vez positiva, pois a média dos retornos anormais da janela de evento apresentou-se maior que a média da janela de estimação, apresentando p-valor de 0,55.
Conforme apresentado na metodologia, acumulou-se os retornos anormais de forma de evidencia-se de maneira mais explicita a reação das ações por meio de gráficos. E os resultados apresentam uma série de retornos anormais positivos em torno da data de evento. Porém quando se efetuou o mesmo procedimento separando-se as ações por tipo, as ações preferências quanto as units não apresentaram um padrão tendo resultados inconclusivos. As ações ordinárias apresentaram uma série de retornos positivos, podendo-se supor que os titulares deste tipo de ação reagiram positivamente, tendo expectativas de maximização de valor das empresas envolvidas.
Por último, elaborou-se outra figura com apresentando as médias dos retornos anormais e, novamente, quando se observa todas as ações em conjunto, os retornos anormais variam positivamente e negativamente em torno da janela de evento, não permitindo inferir alguma conclusão. O mesmo resultado é encontrado quando se analisa as ações preferenciais e units, porém as ações ordinárias apresentam sucessivos retornos positivos.
Portanto, de maneira geral, os anúncios não causaram reação com significância estatística nos acionistas das empresas envolvidas em constituição de joint ventures. Porém observa-se que quando é observado separadamente os tipos de acionistas, as que suscitam algum grau de controle reagem com significância estatística como as ordinárias e as units. Esse fato pode indicar que exista expectativa de expropriação de recursos por parte dos titulares da unit, para os preferencialistas. Já para os ordinaristas, de forma contraria, sugere-se que há esperança de criação de valor para a empresa, embora somente a diferença dos retornos anormais das ações ordinárias apresenta-se p-valor significativo. Este comportamento aproxima-se do que é abordado por Ball e Brawn (1985), pois reagem de acordo com a eficiência do mercado, embora os retornos anormais das preferencias não tenham significância estatística.
Entretanto, os resultados deste estudo vão de encontro com o estudo de Sarlo Neto et al. (2005), onde os resultados apontaram que as ações ordinárias somente reagem negativamente aos anúncios de prejuízos. Como sugestões de pesquisas futuras, sugere-se explorar mais qualitativamente os tipos de joint ventures formadas, utilizar base de dados maior que compreenda todos os tipos deste tipo de operação e pesquisar mais os aspectos contábeis trazidos pelo CPC 19.
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