Resumo: Propósito do Trabalho: O segmento das micro e pequenas empresas contribui de forma representativa no desenvolvimento econômico e social do país, como exemplo, na geração de emprego e renda (Souza & Mazzali, 2008). Estas, por sua vez, compreendem grande parte das organizações existentes e, sobretudo, diferenciam-se dos empreendimentos de maior porte por assumir o papel do fundador também como dirigente nas operações e precursor de ideias. Desse modo, fica a cargo desse indivíduo o papel de superar os desafios impostos pelo mercado em busca da sobrevivência (Leone, 1999). Entende-se que a tomada de decisão não é uma tarefa fácil, sendo comumente necessário instrumentos que auxiliem nesse processo. No entanto, dissemelhante ao complexo uso de controles gerenciais teoricamente disseminados, acredita-se que as práticas de gestão empregadas nas MPEs seguem uma estrutura simples e centralizada, formada por controles gerenciais adaptados aos modelos sofisticados teoricamente difundidos (Stroeher & Freitas, 2008). Aliado a esse cenário, ao longo dos tempos percebe-se que função do empreendedor seminalmente exercida por homens tem sido também explorada pelo sexo feminino, fomentando uma significativa participação das mulheres na economia. Estudos apontam algumas diferenças básicas no processo de tomada de decisão entre os gêneros, como na forma de traçar estratégias, liderar, relacionar-se com empregados, fornecedores e clientes (Verheul, Risseeuw & Bartelse, 2002). Sob esse cenário, o presente estudo busca verificar se diante do perfil diferente em relação ao gênero, é possível que o sexo do empreendedor-gestor diferencie de alguma forma o uso das proxies de controle gerencial utilizadas em MPEs.
Base da plataforma teórica: Os conceitos seminais sobre empreendedorismo descrevem o empreendedor como agente de transformação que emprega recursos de forma diferenciada (Schumpeter, 1934). Sob essa perspectiva, diversas foram as pesquisas que investigaram características empreendedoras de homens e mulheres. No Brasil, a participação dos empreendedores já soma significativa parcela das atividades econômicas, sendo o gênero feminino responsável por 45% do total (GEM, 2014). No entanto, o ato de empreender não envolve somente empregar valores, mas também gerir seu negócio. Nas micro e pequenas empresas o empreendedor assume o papel de dirigente no processo de gestão, o que inclui o envolvimento de características pessoais, aspirações e motivações (Leone, 1999). Além disso, sabe-se que a distinção de gênero caracteriza diferentes aspirações, formas de liderar, relacionar-se com pessoas no ambiente empresarial e traçar estratégias (Carter, 2001; Verheul, Risseeuw & Bartelse, 2002; Greco et al., 2006). Pesquisam relatam que as mulheres estimulam-se a partir de uma postura mais conservadora, aplicando recursos próprios no investimento, enquanto os homens acreditam que a ideia de assumir riscos é necessária para atingir uma posição mais elevada na sociedade, aumentar o prestígio e o status (Shane, Kolvereid & Westhead, 1991). Ademais, embora o sexo masculino comporta-se mais propenso a arriscar-se, percebe-se que o mesmo lida com os fatos metodicamente, com decisões fundamentadas. As mulheres, em contrapartida, parecem processar informações de forma mais instintiva (Ndemo & Maina, 2007). Isto posto, entende-se que o uso de instrumentos que auxiliem na tomada de decisões está intimamente relacionado ao processo de gerenciar. A literatura prega que os controles internos são eficientes mecanismos no planejamento das operações e para o controle de ações consistentes aos objetivos organizacionais (Merchant & Van Der Stede, 2007). No entanto, estudos destacam que o controle gerencial em organizações de menor porte é realizado de forma centralizada, com estrutura flexível e simplificada, atendendo de forma acessível às necessidades empresariais (Leone, 1999; Stroeher & Freitas, 2008). Entende-se que esses artefatos funcionam como proxies de controle gerencial, ou seja, instrumentos informais/alternativos àqueles disseminados na teoria. No entanto, propõe-se que de alguma forma os mesmos contribuem na avaliação do desempenho organizacional e na validação da gestão (Frezatti, Carter & Barrozo, 2014). Sob esse cenário, acredita-se as diferentes formas de exercer o empreendedorismo entre os gêneros (como no ato de explorar decisões de curto ou longo prazo, agir com instinto racional ou motivacional) podem aglutinar perfis particulares quanto ao emprego de controles no processo de gestão.
Método de investigação: A fim de atingir o escopo definido, a pesquisa adotou um caráter epistemologicamente positivista, sendo operacionalizada por meio de um survey com 196 MPEs (39% de retorno) sediadas na região noroeste do Paraná. A população da pesquisa compreende 500 MPEs localizadas em Paranavaí/PR e sua microrregião (outras onze cidades da região noroeste do Paraná), sendo a amostra estabelecida por conveniência a partir de 100 questionários enviados eletronicamente e 400 por meio impresso. As empresas participantes são cadastradas no Programa Bom Negócio Paraná (um programa da Secretaria de Tecnologia e Ensino Superior do Paraná - SETI). O instrumento de pesquisa estruturou-se a partir 30 questões segmentadas em quatro blocos (além da variável gênero). Cada um deles incorporou os controles gerenciais mais recorrentes na literatura adaptando-os às proxies de (1) planejamento, (2) controles financeiros e de contabilidade, (3) aspectos mercadológicos e (4) gestão de pessoas (Carter e Van Auker, 2006; Lacombe, 2006; Mehralizadeh e Sajady, 2006; Abbade, Zanini e Souza, 2012; Raifur, 2013). O questionário foi preliminarmente formatado em escala de cinco pontos relativa ao nível de discordância e concordância com as operações, e posteriormente adaptado em vertentes de uso (escalas 4 e 5), desuso (escalas 1 e 2) e indiferença (escala 3) quanto as práticas gerenciais. A Análise de Correspondência Múltipla (ACM) foi empregada a fim de apurar a existência de aglomerações entre as variáveis categóricas elencadas e o gênero do empreendedor da MPEs. O pacote estatístico utilizado para tal procedimento foi o Statistical Software Package for Social Science (SPSS), sendo observados os indicadores de inércia e mapa perceptual.
Resultados, conclusões e suas implicações: O emprego da ACM no objeto estudado permitiu apurar algumas relações existentes entre as variáveis por meio da técnica de redução e agrupamento de dados. Quanto ao emprego dos artefatos de planejamento, observou-se que posicionamentos distintos são verificados em relação ao gênero do empreendedor, sendo o sexo feminino menos propenso a aplicar mecanismos relativos a esta proxy. Os achados dispõem que as mulheres tendem a não estabelecer como guia em seus empreendimentos os elementos de missão e visão, são avessas a idealizar planos de ação e estratégico. Além disso, percebe-se um distanciamento das empreendedoras quando o assunto é contribuir na solução de problemas vistas a garantir o cumprimento das metas organizacionais. Ratificando estudos como de Ndemo e Maina (2007), que defendem que homens concentram suas decisões com base em fatos, os resultados no mapa perceptual apontaram o sexo masculino mais associado ao emprego dessas práticas na sua gestão, exceto quanto a participação direta na resolução de problemas. A proxy de elementos financeiros e contábeis, por sua vez, não apurou posicionamentos particulares quanto ao uso [ou desuso] de controles gerenciais em empresas conduzidas por mulheres. No entanto, 90% das variáveis de mensuração dessa proxy mostram-se relacionadas ao emprego nas operações por empreendedores (homens). Verificou-se que onze das doze variáveis da área financeira e de contabilidade apresentaram fortemente agrupadas no vertente de uso, sendo então entendidas com maior tendência ao empregado no processo de gestão do sexo masculino. O terceiro bloco apurou ações relacionadas a práticas mercadológicas na organização. Os resultados encontrados convergem aos achados de Ahmad (2014) que defende que empresas de menor porte estão mais dispostas a empregar em suas operações instrumentos vinculados a área de marketing. Desse modo, o gênero feminino mostrou-se associado um comportamento indiferente em duas principais práticas gerenciais, (1) na participação de atividades ou projetos com outras empresas do ramo a fim de trocar experiências e (2) na divulgação de seus produtos/serviços/imagem em meios de comunicação a fim de aumentar suas vendas. Na mesma tendência que as práticas anteriormente apuradas, o sexo masculino comportou-se positivamente propenso a utilizar essas ferramentas de controles gerenciais. O plano gráfico agrupou sete das oito variáveis elencadas na proxy, sendo duas delas fortemente associadas a esse gênero, (1) o uso de mecanismo que auxiliem na detecção de riscos que o mercado dispõe e (2) o fornecimento aos colaboradores de uma política de atendimento aos clientes. Por fim, o comportamento relativo ao gerenciamento de pessoas apresentou características particulares quanto a gênero. O primeiro perfil de empreendedores – sexo masculino – mostram-se motivados a estabelecer em suas atividades políticas de recompensa por desempenho de funcionários. Essa característica comporta-se um pouco diferente entre as mulheres, uma vez que tendem a não aplicar em seu processo de gestão esta prática. Compreende-se que as mulheres optam por manter relações flexíveis e interativas, talvez baseadas na confiança ou ainda na contribuição pessoal de cada indivíduo, conforme discutido por Machado (2002). Ademais, por meio das preliminares análises descritivas, observou-se que o emprego de controles gerenciais é ainda incipiente nessas organizações, elemento que pode ser propagado no ambiente como forma de estímulo social. Assume-se que esta discussão é o início de investigações acerca não somente do perfil de liderança e estratégico entre mulheres e homens, como também à análise das implicações que o uso de diferentes instrumentos podem causar na performance empresarial.
Referências bibliográficas: Ahmad, K. (2014). The Adoption of Management Accounting Practices in Malaysian Small and Medium-Sized Enterprises. Asian Social Science, 10(2), 236-249.
Chenhall, R.H., Morris, D. (1986). The Impact of Structure, Environment, and Interdependence on the Perceived Usefulness of Management Accounting Systems. The Accounting Review, 61, 16-35.
Frezatti, F., Carter, D.B., Barroso, M.F.G. (2014). Accounting without accounting: Informational proxies and the construction of organisational discourses. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 27(3), 426-464.
Schumpeter, J. (1934). The Theory of Economic Development, Cambridge, MA: Harvard University Press.
Stroeher, A. M., Freitas, H. O uso das informações contábeis na tomada de decisão em pequenas empresas. Revista de Administração eletrônica, 1(1), 2008.
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