Resumo: Propósito do Trabalho: O contexto da evasão no âmbito do ensino superior é marcado por uma série de consequências negativas para o aluno evadido, para a Instituição de Ensino Superior (IES) e para a sociedade como um todo. Nesse sentido, o estudo objetiva identificar os fatores determinantes da evasão dos discentes do Curso de Bacharelado em Ciência de uma IES Pública. Trata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, cujos dados foram coletados por meio de questionário. Dos 286 estudantes evadidos no período analisado (2013.1 – 2014.2), alguns se recusaram a participar da pesquisa e outros não foram encontrados, reduzindo a amostra à 50 respondentes. Os resultados demonstram que os participantes da pesquisa apresentam faixa etária entre 19 e 24 anos, com perfil predominante para o gênero masculino, solteiros e sem filhos. Em relação às modalidades de evasão, o presente estudo apontou para uma maior incidência da evasão de curso e/ou instituição. Tais modalidades de evasão, apesar de acarretarem prejuízos, são encaradas apenas como uma transição do aluno para outro curso e/ou IES, diferentemente da evasão de sistema, em que o aluno abandona o curso superior de forma definitiva ou temporária. Constatou-se que as causas principais que justificaram a evasão dos estudantes apresentam relação com questões vocacionais e de dificuldade de aprendizagem. Em contrapartida, a dificuldade financeira não se destacou como um fator determinante da evasão, em virtude da maioria da amostra possuir renda satisfatória. Esses resultados apontam para uma necessidade das IES encararem a problemática da evasão com mais compromisso, de modo a proporem e executarem ações eficazes de combate à evasão.
Base da plataforma teórica: Para Lobo (2012) a evasão do sistema é exatamente aquela que exige políticas públicas, que vão além das questões institucionais, acadêmicas ou até das individuais, uma vez que a evasão representa um problema grave para a educação de qualquer nível de ensino, em qualquer lugar do mundo, comprometendo o desenvolvimento da nação. As abordagens da evasão no ensino superior (evasão da IES, evasão do curso e evasão do sistema) foram definidas pela Comissão Especial de Estudos sobre Evasão do MEC com o intuito de estabelecer uma precisão conceitual e possibilitar a comparabilidade dos resultados, uma vez que a literatura aborda diferentes conceitos para o fenômeno da evasão, sem existir um consenso (Ribeiro, 2005). O fenômeno da evasão universitária pode originar-se a partir de vários fatores, envolvendo questões pedagógicas, psicológicas, sociais, políticas, econômicas, administrativas, entre outras (Baggi & Lopes, 2011). Na maioria das vezes, a evasão não é provocada por uma única causa e sim por um conjunto de fatores (Costa, 2005). De acordo com Baggi e Lopes (2011), a evasão no ensino superior é um fenômeno complexo, que não pode ser analisado fora de um contexto histórico mais amplo, uma vez que reflete a realidade de níveis anteriores de ensino, exercendo influências sobre a decisão de abandono de um curso superior. Tigrinho (2008) defende a ideia de que a falta de maturidade dos estudantes no processo de escolha da profissão e a ausência de orientação vocacional, faz com que esses estudantes acabem cedendo à vontade e sugestão dos pais e familiares, considerados bem sucedidos no trabalho, em detrimento dos próprios sonhos e ideais. Os impactos decorrentes da evasão no ensino superior acarretam em perdas significativas sob a ótica econômica, social e descumprimento da função política gerencial da instituição (Prestes; Fialho; Pfeiffer, 2014). Esses impactos atingem diretamente as IES, o próprio aluno evadido e a sociedade como um todo. O aluno perde ao não obter o título de graduado (Tigrinho, 2008), a sociedade perde ao custear as atividades por meio dos encargos sem ter o devido retorno concretizado pela formação de pessoas qualificadas para atuarem no mercado de trabalho e a IES pública perde com o orçamento que fica comprometido, uma vez que sua sustentabilidade financeira depende da quantidade de alunos matriculados (Prestes et al, 2014). Compreender o processo de evasão dos cursos de graduação é enfrentar uma das crises da universidade, na medida em que essa atitude pode ser a forma que os discentes encontram para se manifestarem, tendo em vista que não encontram na universidade um ambiente que leve em consideração a diversidade de sua comunidade e o interesse pela discussão dessa diversidade (Veloso e Almeida, 2002). Segundo Franco (1997 apud Ribeiro, 2005), a universidade não está preparada para receber e lidar com a diversidade dos discentes que ingressam no sistema universitário e nem está discutindo seu papel frente às novas expectativas dos discentes em relação ao curso superior, deixando de entender seu novo papel e função social e de atender as novas demandas com uma nova estrutura.
Método de investigação: A classificação da pesquisa segue o enfoque proposto por Raupp e Beuren (2004). Descritiva quanto aos objetivos; bibliográfica e levantamento, quanto aos procedimentos; e qualitativa, quanto à abordagem do problema. Inicialmente, foram levantadas informações junto à Coordenação do Curso de Ciências Contábeis da IES Pública e do Núcleo de Tecnologia da Informação (NTI) sobre a quantidade de alunos egressos no período de 2013 a 2014, totalizando 4 semestres. A lista de egressos fornecida pelo NTI é composta por alunos concluintes e por alunos evadidos (abandono, mudança de curso, solicitação do aluno e transferência). Considerando o referido período, no total, o curso registrou 228 egressos no turno da manhã, 110, ou seja, 48,25% de egressos, efetivamente, evadidos, uma média de 27,5 alunos evadidos por semestre. Quanto ao turno noturno, foram registrados 260 egressos. Desses, 176, ou seja, 67,69% correspondem aos egressos evadidos, perfazendo uma média de 44 alunos evadidos por semestre. Considerando a população de 286 alunos evadidos e o erro amostral tolerável em 5%, 167 alunos deveriam participar da pesquisa. O tamanho da amostra caracterizado por 167 alunos evadidos representa 58,39% da população. A presente pesquisa contou com a participação de 50 alunos evadidos (17,48% da população). Esse número reduzido é justificado pela aplicação do questionário exclusivamente por meio eletrônico (e-mail), uma vez que muitos alunos evadidos não possuíam e-mail ou estavam com e-mail desatualizado bem como pela aversão ao ato de responder questionário em meio eletrônico. Para que a presente pesquisa se tornasse viável, foi necessário estabelecer critérios de delimitação de caráter espacial e temporal.
Resultados, conclusões e suas implicações: Em relação às motivações levadas em consideração pelos estudantes evadidos no momento da escolha do curso, constatou-se que a facilidade de acesso ao mercado de trabalho (20,48%) e a influência dos pais e/ou familiares (18,07%) foram os motivos mais indicados. Entre as modalidades de evasão existentes, sem dúvidas a evasão de sistema é a mais prejudicial, uma vez que afasta o aluno do ambiente universitário, privando a sociedade de ter acesso aos serviços que poderiam ser oferecidos pelo profissional de nível superior. Porém, a realidade dos discentes evadidos apontou para uma predominância da evasão de curso e da evasão de instituição (66%). Essas modalidades de evasão, diferentemente da evasão de sistema, proporcionam um impacto menor na sociedade, haja vista que são interpretadas apenas como uma transição do aluno para outro curso e/ou para outra IES. Conclui-se que a evasão no Curso de Ciências Contábeis da IES Pública investigada apresenta causas diversificadas, com destaque para a dificuldade de aprendizagem refletida no desempenho acadêmico insatisfatório (10,89%), na insuficiência de tempo para se dedicar aos estudos (20,79%) e na dificuldade de conciliar estudo e trabalho (10,89%). É importante compreender que as questões de insucesso acadêmico e ausência de tempo costumam ser mais comuns entre os alunos do turno da noite, em virtude da priorização do trabalho em detrimento do estudo por questões de sobrevivência. Constatou-se que 64% dos estudantes evadidos pertenciam ao turno da noite, sendo estes estudantes os que apresentaram maiores índices de reprovações por insuficiência de nota e por frequência insuficiente, principalmente, em disciplinas inseridas no eixo dos conteúdos básicos profissionais, tais como: Contabilidade I, Contabilidade II, Contabilidade III e Matemática Financeira. Também, identificou-se que o descontentamento com o curso escolhido (13,86%) associado à busca por aprovação em vestibular para outro curso (6,93%) representaram uma justificativa relevante para a evasão dos estudantes. Tais fatores estão relacionados com questões vocacionais. Embora a análise dos dados tenha apontado para uma baixa incidência da dificuldade financeira (2,97%) como fator determinante para a evasão, faz-se necessário refletir acerca da defasada política assistencialista oferecida pelas IES públicas que não acompanhou o expressivo crescimento da população universitária nos últimos anos e que por tal motivo, não vem cumprindo seu papel social ao indeferir solicitações de benefícios de estudantes que de fato necessitam de apoio financeiro para continuarem inseridos no meio universitário. É preciso repensar a atual política assistencialista das IES públicas, sobretudo, do ponto de vista do compromisso social, para que a perspectiva da evasão universitária ocasionada por questões financeiras caminhe para o fim. Reconhecendo as limitações da pesquisa, para pesquisas futuras recomenda-se a realização de estudos com o mesmo enfoque da presente pesquisa nos Cursos de Ciências Contábeis de outras IES públicas para que o comportamento dos discentes evadidos seja conhecido, e com isso seja possível fazer estudos comparativos. Também, entende-se como relevante o estudo da evasão na Pós-Graduação em Ciências Contábeis. No contexto das discussões em torno da educação superior a questão da evasão universitária é percebida como um desafio a ser superado pelas IES, devendo ser encarado com responsabilidade e comprometimento. Por fim, diante dessa perspectiva o presente estudo trouxe contribuições significativas, tendo em vista que os resultados encontrados servirão de base para que os gestores do sistema universitário conheçam o perfil do discente evadido assim como o seu quantitativo, e com isso aperfeiçoem programas já existentes a fim de estabelecer estratégias que minimizem o impacto da evasão nas instituições de ensino superior.
Referências bibliográficas: BEUREN, I. M. (2004). In.: BEUREN, Ilse Maria: organizadora e colaboradora; colaboradores: André Andrade Longaray, Fabiano Maury Raupp, Marco Aurélio Batista de Souza, Romualdo Douglas Colauto, Rosimere Alves de Bona Porton. Como elaborar trabalhos monográficos em contabilidade: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Atlas.
BAGGI, C. A. dos S; LOPES, D. A (2011). Evasão e avaliação institucional no ensino superior: uma discussão bibliográfica. Avaliação (Campinas), Sorocaba, v. 16, n. 2, p. 355-374. Disponível em: . Acesso em: 14 abr. 2015.
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LOBO, M. B. de C. M. (2012). Panorama da evasão no ensino superior brasileiro: aspectos gerais das causas e soluções. Evasão no ensino superior brasileiro / Cecília Eugenia Rocha Horta, organizadora e coordenadora. – Brasília: Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, 82 p. (Cadernos ABMES; 25). Disponível em:. Acesso em: 08 abr. 2015.
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Ribeiro, M. A. (2005). O projeto profissional familiar como determinante da evasão universitária: um estudo preliminar. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 6(2), 55-70. Recuperado em 16 de fevereiro de 2016, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-339020050002000 06&l ng=pt&tlng=pt.
TIGRINHO, L. M. V. (2008). Evasão Escolar nas Instituições de Ensino Superior. Revista Gestão Universitária, São Paulo. Disponível em: . Acesso em: 21 maio 2015.
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