Resumo: Propósito do Trabalho: Uma outra fronteira, contrapondo as premissas da teoria da agência, alerta para a possibilidade do agente não assumir uma postura oportunista e sim colaborativa, denominada por Davis, Schoorman e Donaldson (1997) de teoria do stewartship. A Governança Corporativa apresenta-se como um conjunto de mecanismos que atuam no sentido de fortalecer a confiança nas relações existentes entre acionistas e organizações (Punsuvo et al., 2007). O conselho de administração é um dos principais mecanismos para alinhamento dos interesses de acionistas e gestores dentro da estrutura de Governança Corporativa de uma companhia (Silveira, Barros & Famá, 2003). O presente estudo se propõem discorrer no campo da governança corporativa, em especial dentro da seara que aborda a estrutura do conselho, no tocante a dualidade CEO e sua influência no desempenho das organizações. O estudo se justifica pela relevância do tema para literatura e para os investidores. A literatura carece de evidências compreensíveis sobre o impacto da dualidade do CEO no desempenho da empresa devido aos problemas endógenos e heterogeneidade (Yasser & Mamun, 2015). No Brasil, as incertezas econômicas e as lacunas nas investigações que envolvem dualidade CEO nas organizações, motivam a pesquisa e o anseio por contribuições a partir dos achados. Diante deste contexto a presente pesquisa tem por objetivo analisar a relação existente entre a dualidade CEO e o desempenho corporativo das empresas brasileiras listadas na BM&FBovespa no período de 2010-2014. A pesquisa envolve todas as empresas, exceto aquelas classificadas no setor econômico “Financeiro e Outros”.
Base da plataforma teórica: A Teoria da Agência preocupa-se em administrar relação conflitante entre os diferentes anseios entre principal e agente. O foco da teoria está em determinar o contrato mais eficiente que irá reger a relação entre principal-agente (Eisenhardt, 1989). Consequentemente, o referido contexto implica em um constante monitoramento das ações do agente, a partir de uma estrutura de Governança Corporativa que implica em custos para monitorar a relação de agência. A Teoria da Agência sugere que a separação entre propriedade e controle é o melhor desenho organizacional, no qual os benefícios de um maior acesso ao capital e gestão profissional, normalmente superam os custos associados com a delegação do controle das decisões de negócios para gerentes (Fama & Jensen, 1983). Davis, Schorman e Donaldson (1997) propõem, a partir da premissa da existência de modelo de agente com base na psicologia e sociologia, uma nova teoria denominada Teoria do Stewardship. Segundo os autores, o agente não age no interesse próprio, mas sim coletivo, mas coletivo, segundo uma orientação pró ativa e baseada na confiança mútua. Na ótica da Teoria do Stewardship, o gerente executivo não tem índole oportunista, tão somente busca realizar um bom trabalho de administração dos ativos corporativos. Assim, a referida teoria sustenta que não há nenhum problema inerente. Dada a ausência de um problema motivacional entre os executivos, o desafio está em conseguir o bom desempenho das empresas as quais dirige. Assim, as variações de desempenho estariam condicionadas à liberdade de ação a que o gestor está condicionado na empresa. De modo genérico, as pesquisas que relacionam os mecanismos de governança (Weir et al., 2002; Comforth, 2004), assim como os estudos voltados a estrutura de propriedade, foram realizados relacionando os referidos mecanismos ao desempenho das organizações. Shleifer e Vishny (1997) definem Governança Corporativa como um conjunto de mecanismos que os gestores ou investidores se auto aplicam de modo propor uma melhor gestão dos recursos alocados ex-post motivando os investidores na alocação de investimentos ex-ant (Shleifer & Vishny, 1997). Na literatura empírica, a eficácia do monitoramento do conselho é vista em função da sua independência, tamanho e estrutura de liderança. A estrutura de liderança, que se manifesta pela combinação ou a separação dos papéis do Chief Executive Officer (CEO) e Presidente do Conselho (Carapeto et al., 2009). Na literatura, alinhada com a Teoria da Agência, não há um consenso quanto a relação entre Dualidade do CEO e o desempenho, visto a partir de diferentes indicadores (Wahba & Elsayeb, 2014; Saibaba, 2013; Syriopoulos & Tsatsaronis, 2012). No Brasil, o IBGC em suas recomendações de Boas Práticas de Governança, indica que se deve evitar o acúmulo das funções de CEO e presidente do conselho, haja vista limitar a supervisão adequada da gestão. Amaral-Baptista et al. (2011), pesquisando empresas brasileiras, encontraram em seus resultados que naquelas em que o CEO e presidente do conselho são a mesma pessoa o desempenho foi significantemente superior em 2008, alinhando com a Teoria do Stewartdship.
Método de investigação: O estudo caracteriza-se com uma pesquisa documental, visto que os dados foram extraídos das demonstrações financeiras relativas ao período de 2010 a 2014, disponível no sítio da BM&FBovespa. A população da pesquisa compreende as 351 companhias abertas listadas na BM&FBovespa, exceto as classificadas, segundo a bolsa de valores brasileira, no setor econômico “Financeiro e Outros”, devido às características singulares de suas atividades. A amostra da pesquisa compreendeu em 132 empresas, ao qual foram desconsideradas as companhias com os dados que não estavam disponíveis nos períodos analisados, totalizando 660 observações. Das 132 empresas, 31 apresentaram dualidade do CEO em 2010, 29 em 2011, 28 em 2012, 20 em 2013 e 19 em 2014, perfazendo um total 127 observações que apresentam dualidade do CEO e 533 que não apresentam. Primeiramente, foi realizado uma estatística descritiva das variáveis e o teste de média de Mann-Whitney para verificar a distribuição do desempenho empresarial são iguais ou diferentes nas empresas com dualidade e sem do CEO. Posteriormente foi aplicado a correlação de Pearson e o Fator de Inflação de Variância (VIF) para verificar problemas de multicolinearidade entre as variáveis. Em seguida os pressupostos da análise de dados em painel. Por fim, com a aplicação da regressão de dados em painel balanceado para verificar a relação entre a dualidade do CEO e o desempenho das empresas. Um total de cinco modelos de dados em painel são formulados para examinar a relação entre a dualidade do CEO e o desempenho das empresas brasileiras litadas na BM&FBovespa. O desempenho é mensurado por cinco medidas de performance, tanto com base na contabilidade, como base de mercado. As medidas de desempenho contábil incluem o Retorno sobre o Ativo Total (ROA), Retorno sobre o Capital Empregado (ROCE) e Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), enquanto a medida de mercado é o Market-to-Book (MTB) e Q de Tobin (Q). Além da dualidade do CEO (DUAL) como uma variável independente ou explicativa, outras características das empresas foram consideradas como medidas que afetam o desempenho, incluídas como variáveis de controle no modelo de dados em painel. Estas variáveis de controle consistem no logaritmo natural do total de ativos (LNTAM), logaritmo natural das receitas líquidas (LNREC) e logaritmo natural do valor de mercado (LNMER).
Resultados, conclusões e suas implicações: As empresas analisadas, tanto as que possuem dualidade como as que não possuem, demonstraram diferentes níveis de desempenho, variando de companhias com altos níveis, quanto aquelas com performance negativa. Além disso, o teste de comparação de média foi significativo para o ROE, MTB e Q, ou seja, a média de desempenho das empresas são diferentes para as empresas que possuem e não possuem dualidade do CEO. Estes achados pressupõem que a relação dualidade e desempenho das empresas brasileiras listadas da BM&FBovespa, podem ser explicadas tanto pela Teoria da Agência como pela Teoria do Stewardship. Já a significância para a variável MTB, corrobora com a Teoria do Stewardship de que organizações ao qual o cargo de presidente do conselho de administração e do CEO é ocupado pela mesma pessoa, apresentam um melhor desempenho, pois a média foi maior. A dualidade do CEO pode promover uma liderança unificada e forte com um claro sentido de orientação estratégica, já que o CEO possui o conhecimento dos negócios e sabe como administrar a empresa, combinando estes dois papéis podem ajudar na tomada de decisões oportunas e ideais para entidade (Lam & Lee, 2008). O estudo buscou identificar possíveis problemas de multicolinearidade, através do teste Fator de Inflação de Variância (VIF) e da correlação de Pearson. Os resultados apresentam a dualidade do CEO como estatisticamente significativa e negativa com as variáveis de desempenho Q (r = -0,079; p-value < 0,05) e ROE (r = -0,098; p-value < 0,05). Tais achados, leva a presumir que a dualidade do CEO afeta negativamente o desempenho da empresa, apoiando a Teoria da Agência. Entretanto, tal afirmação só pode ser considerada a partir da regressão em dados em painel. Os resultados da correlação de Pearson demonstram que não há alto grau de correlação entre as variáveis independente e de controle (correlação superior a 85%), denotando não haver problemas elevados de multicolinearidade que possam afetar os resultados do modelo de regressão de dados em painel com as variáveis utilizadas. Os resultados da relação da dualidade do CEO e o desempenho das empresas evidenciam que a dualidade do CEO está negativamente relacionada com quase todas as medidas de desempenho (ROE, MTB e Q). Entretanto, esta relação é estatisticamente significativa apenas para a retorno sobre o patrimônio líquido e para o Q de Tobin. Os achados empíricos para estas duas variáveis de desempenho, sustentam a Teoria da Agência, de que o CEO pode exercer sua autoridade nos processos de tomada de decisão e, consequentemente o conselho de administração pode não ser capaz de avaliar CEO de uma forma eficaz em caso de dualidade dentro da empresa, diminuindo assim o desempenho da organização. Já para Market-to-Book (MTB), observou-se uma relação positiva com a dualidade do CEO. Em outras palavras, o desempenho da empresa é afetado positivamente em caso diretor executivo é também o presidente do conselho de administração. Este resultado está de acordo com a Teoria do Stewardship. A relação positiva deve-se ao fato de que o CEO ira agir de acordo com os propósitos de empresa devido à forte relação entre os fins da empresa e as expectativas dos sócios. Igualmente, as empresas que possuem a dualidade do CEO iram expor uma liderança mais forte, eliminar potenciais conflitos entre o CEO e o presidente do conselho, além de obter ganhos de eficiência através da unidade de comando (Amaral-Baptista et al., 2011). Para as variáveis de controle, os coeficientes de regressão foram estatisticamente significativos, o que é consistente com estudos empíricos anteriores. Mas ao contrário das expectativas, o tamanho da empresa apresentou uma relação negativa, assim quanto maior o tamanho da empresa menor tende a ser o desempenho. Por fim, a receita e o valor de mercado foram positivamente relacionadas, porém a receita apresentou uma relação negativa com o retorno sobre o patrimônio líquido. Por fim, conclui-se que no caso brasileiro, a dualidade do CEO pode estar tanto positivamente como negativamente relacionada com o desempenho financeiro das empresas de capital aberto, corroborando assim com a Teoria da Agência e a Teoria do Stewardship.
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