Anais do 16º International Conference in Accounting - 16º  2016
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Código: 36

Área Temática: Área III: Contabilidade Financeira

Título: A Competição por Informações é Capaz de Reduzir o Custo do Capital Próprio das Empresas Brasileiras?

Resumo:
Propósito do Trabalho:
A hipótese de que os mercados são eficientes (HME) não discute alguns tópicos importantes da literatura financeira, omitindo a literatura sobre o equilíbrio de expectativas racionais em um ambiente de informação assimétrica (LeRoy, 1976), que foca em como os agentes com expectativas racionais interagem quando tomam conhecimento de que a distribuição de informações é imperfeita, com alguns participantes do mercado com melhores informações do que outros (LeRoy, 1989). Esta questão é explorada neste artigo com uma abordagem que busca apontar para o lado bom (ou não tão ruim) da distribuição assimétrica de informações, pois muitas vezes uma empresa não está apta a divulgar uma informação de forma direta, mas acaba possibilitando isso por meio do estímulo à competição por informações. Considerando que o risco informacional pode ter implicações no custo do capital próprio das empresas mesmo quando há algum poder diversificação (Lambert, Leuz & Verrecchia, 2007), surge então a importância de se estimular a competição por melhores informações entre os agentes do mercado de capitais, implicando na disseminação de tais informações e, em consequência, a redução dos problemas informacionais existentes. Esse fenômeno deverá ocorrer pois uma vez que os investidores informados melhoram a precificação dos ativos, disseminando informações aos investidores sem acesso a tais informações, isso faz com que o risco informacional seja reduzido, assim como o custo do capital próprio. Com base no que foi apresentado anteriormente, este artigo tem como objetivo geral analisar o efeito da competição por melhores informações no custo do capital próprio das empresas brasileiras que negociam seus títulos na BM&FBovespa.

Base da plataforma teórica:
Utilizou-se o “modelo de equilíbrio do desequilíbrio” (Paradoxo Informacional de Grossman e Stiglitz) Grossman e Stiglitz (1980), em que os preços dos ativos de risco refletem as informações dos insiders parcialmente de tal maneira que o sistema de preços será mais informativo à medida que mais indivíduos informados existam no mercado, uma vez que estes transmitirão (obviamente de forma imperfeita/incompleta) mais informações ocultas aos indivíduos não informados. Na visão de Grossman e Stiglitz (1980), todos os investidores são, inicialmente, idênticos “informacionalmente” e têm as mesmas expectativas; até que alguns investidores adquirem informações privadas (theta). De posse dessas informações, os investidores podem processar outras informações de forma mais eficiente de modo a “dominar” os demais participantes do mercado de capitais (Verrecchia, 2001). Para existir um equilíbrio no mercado é necessário que haja a mesma utilidade esperada por todos os participantes. Contudo, à medida que os agentes informados negociam munidos de theta, os agentes desinformados tendem a ter mais informações, conhecendo também parte de theta. Logo, a utilidade dos agentes informados cai em relação à utilidade dos desinformados porque os agentes informados compram os títulos quando eles estão subavaliados e vendem quando eles estão sobreavaliados – em relação às informações theta obtidas por meio do consumo de c. Argumenta-se, então, que “como o sistema de preços se torna mais informativo, a diferença nas informações – e, portanto, a magnitude que o agente informado pode ganhar em relação ao desinformado – é reduzida” (Grossman & Stiglitz, 1980, p. 394). Ou seja, quanto mais agentes informados negociando munidos de informações privadas, mais eficaz é o sistema de preços a que esse ativo está submetido, o que faz com que o retorno e o risco esperados para os ativos sejam cada vez mais semelhantes entre os que consomem recursos c para a obtenção de theta e aqueles que apenas se beneficiam das informações porque existem muitos agentes informados no mercado. Se a qualidade da informação tender ao infinito, esta também tenderá a aumentar a disseminação de informações para o mercado (Grossman & Stiglitz, 1980) por meio da atuação dos agentes informados. Assim, o retorno anormal e a variância dos retornos também tenderão a zero, fazendo com que o mercado entre em colapso, uma vez que não haverá competição por informações para a formação do preço dos ativos. Com base no que foi exposto, tem-se a primeira hipótese desta pesquisa (H1): a competição por informações privadas reduz o custo do capital próprio das companhias abertas brasileiras. Espera-se não rejeitar a H1, porque uma empresa poderá influenciar o seu custo do capital manipulando a precisão ou a quantidade de informações (Easley & O’Hara, 2004), por exemplo atraindo uma alta cobertura de analistas que competirão por melhores informações, e que o agente informado recebe informações sobre o componente idiossincrático e sistemático, pois as informações são geradas por fundamentos que surgem a partir de um contexto geral e não apenas específico da empresa, além das conjecturas de Grossman e Stiglitz (1980), que tratam especificamente da disseminação de informações por meio do uso de informações privadas no mercado de ativos de risco.

Método de investigação:
A amostra é composta por todas as empresas não financeiras que tiveram cotação na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) em pelo menos um trimestre, no período compreendido entre o primeiro trimestre de 2008 e o último trimestre de 2014, com dados disponíveis nos bancos de dados da Thomson Reuters Eikon®. A proxy utilizada para competição por informações é a cobertura dada pelos analistas de investimentos (COB). Mesmo que individualmente os analistas errem individualmente, no conjunto, quanto mais analistas cobrindo as atividades de uma empresa, menor será o erro, pois maior será a disseminação e a precisão das informações (Easley & O’Hara, 2004). Para padronizar com as demais variáveis do modelo que foi utilizado, aplicou-se o logaritmo natural à COB. Seguindo a linha de pesquisas anteriores (BOTOSAN & PLUMLEE, 2013), foi utilizado o custo do capital (COC) implícito em excesso à taxa livre de risco, NTN-B Principal. Outras pesquisas (e.g. Armstrong et al, 2011; Akins, Ng & Verdi, 2012) utilizaram os retornos realizados como proxy para o COC, porém como os retornos realizados são muito problemáticos (“noisy”), por serem uma “medida pobre sobre a expectativa dos retornos” e necessitarem de “uma amostra muito grande” (Pástor, Sinha & Swaminathan, 2008, p.2860), preferiu-se seguir a linha do COC implícito. Para testar a H1 de que a competição por informações privadas reduz o custo do capital próprio das companhias abertas brasileiras, utilizou-se a Equação 2 abaixo: COCit = b + b1betait + b2sizeit + b3ln(mtb)it + b4ln(COBEPS)it + bit (2) Em que: COC é o custo do capital próprio (peg_prem); beta é uma medida de risco sistemático, mensurado por meio de um modelo de mercado com 60 meses de observações mensais; size é o logaritmo natural do valor de Mercado da empresa; mtb é o logaritmo natural da razão market-to-book; e ln(COBEPS) é o logaritmo natural de 1 mais a quantidade de analistas que acompanham a empresa. Com base na argumentação elaborada no desenvolvimento da H1 e na escolha da COB como proxy para a competição por informações, espera-se que a ln(COBEPS) tenha um efeito negativo no COC, uma vez que deverá haver a disseminação de informações aos investidores desinformados, reduzindo o custo do capital, pela redução do risco informacional.

Resultados, conclusões e suas implicações:
A cobertura de analistas apresentou-se relevante para a explicação do custo do capital, reduzindo-o. Isso implica dizer que a competição por melhores informações é capaz de reduzir o custo do capital próprio, sendo este efeito mais evidente em empresas que estão em um ambiente informacional previamente ruim (últimos quantis da regressão quantílica, q.90 e q.95), além de que o efeito apenas é significativo quando a empresa tem uma baixa cobertura de analistas, sendo esse resultado justificado pelo próprio Paradoxo de Grossman-Stiglitz, uma vez que no limite não haverá incentivo para se competir por melhores informações, pois haverá tanta informação disseminada indiretamente pelos competidores que não haverá mais oportunidades para se garimpar novas informações privadas. O resultado mencionado no parágrafo anterior é a principal inovação deste artigo: a competição por melhores informações afeta empresas que têm um ambiente informacional ruim, porém seu efeito é evidente de forma robusta em empresas que têm baixa cobertura de analistas (mais informações a serem descobertas e disseminadas ao público em geral). Esse resultado é robusto para várias formas de estimação, não se mantendo poucas vezes em alguns casos específicos, a exemplo de quando se insere a variável tamanho das empresas (size), devido a um possível problema de multicolinearidade, gerado pela alta correlação entre a cobertura dos analistas e o tamanho das companhias. A principal contribuição deste artigo à literatura sobre competição por informações e custo do capital foi evidenciar que a atração de analistas para cobrir as atividades das empresas é importante para que elas consigam reduzir seu custo do capital, pelo menos até certo ponto. A cobertura de analistas dominou outras variáveis comuns nesta literatura, como a probabilidade de negociação com informações privilegiadas, o total de investidores e o número de investidores institucionais, que foram utilizadas como testes de robustez. Ressalta-se que o efeito da competição por informações, gerada pelos analistas, é mais robusta em ambientes informacionais previamente ruins e onde há uma baixa cobertura de analistas, uma vez que havendo baixa cobertura de analistas, há também mais informações privadas a serem descobertas. Sendo assim, os analistas desempenham papel importante na redução do custo do capital das empresas, até que o processo de divulgação de informações se torne mais eficiente (com mais informações públicas do que privadas), quando eles passam não afetar mais o custo do capital. É importante também ressaltar algumas limitações relacionadas aos dados utilizados. Por impossibilidade de acesso aos dados, não foi possível estimar a PIN para o período completo, recorrendo-se a estimações utilizadas em outras pesquisas realizadas no Brasil, os dados sobre investidores institucionais só são disponibilizados a partir de 2010 e se apresentaram com muitas aberrações que foram tratadas como “erro de digitação” de quem preencheu os Formulários de Referência e, por último, poucas empresas apresentaram previsões de analistas suficientes para que pudessem ser incluídas na amostra e estimar o custo do capital. Esses foram os principais fatores que limitaram a análise dos dados desta pesquisa e que podem ser explorados no futuro, quando houver mais disponibilidade de dados brasileiros, porém não invalida os resultados, uma vez possui mais, ou pelo menos, a mesma quantidade de dados analisados em pesquisas brasileiras anteriores com temas relacionados ao aqui pesquisado.

Referências bibliográficas:
Botosan, Christine A.; Plumlee, Marlene A. (2013). Are Information Attributes Priced? Journal of Business Finance & Accounting, 40(9-10), 1045-1067. Easley, David; O’Hara, Maureen. Information and the cost of capital. (2004). The Journal of Finance, LIX(4), 1553-1583. Grossman, S. J., & Stiglitz, J. E. (1980). On the impossibility of informationally efficient markets. The American Economic Review, 70(3), 393-408. Lambert, Richard; Leuz, Christian; Verrecchia, Robert. (2007). Accounting information, and the cost of equity capital. Journal of Accounting Research, 45(2). LeRoy, Stephen F. (1976). Efficient capital markets: comment. The Journal of Finance,31(1), 139-141. LeRoy, Stephen F. (1989). Efficient capital markets and martingales. Journal of Economic Literature, 27, (4), 1583-1621. Pástor, Lubos; Sinha, Meenakshi; Swaminathan, Bhaskaran. (2008). Estimating the intertemporal risk-return tradeoff using the implied cost of capital. The Journal of Finance, LXIII(6), 2859-2897. Verrecchia, Robert E. (2001). Essays on disclosure. Journal of Accounting and Economics, 32(1), 97-180.

 

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