Resumo: Propósito do Trabalho: As organizações na atualidade necessitam ser eficientes no investimento e gestão dos recursos internos estratégicos para serem competitivas no contexto da globalização. Um dos recursos organizacionais é o capital intelectual que pode ser aprimorado, propiciando melhor retorno pelo seu investimento se utilizadas ferramentas adequadas para seu desenvolvimento. Dessa maneira é importante a sua mensuração afim de que a organização possa compreender quais de seus projetos promovem maior retorno e menor risco no investimento no capital intelectual. Diante deste contexto, apresenta-se à questão que norteia a presente pesquisa: qual a distribuição de retorno em criação de valor do investimento nos componentes mensuráveis do capital intelectual? Por meio do problema de pesquisa o estudo tem como objetivo principal o de estimar a distribuição de retorno na margem de criação de valor do investimento nos componentes do capital intelectual na base amostral empregada. Essa pesquisa combina o uso de metodologia quantitativa de simulação de retornos e riscos no estudo do capital intelectual. Assim há a contribuição para as duas áreas do conhecimento, pois conforme apresentado Edwards, Ababneh e Shaw (2009), há poucos estudos na literatura que integram a pesquisa sobre capital intelectual e a utilização de modelos de pesquisa operacional, apesar do potencial que a integração das duas áreas representa para o suporte à decisão sobre o capital intelectual nas organizações.
Base da plataforma teórica: O capital intelectual, segundo Stewart (1998), pode ser entendido como a somatória do conhecimento presente na organização que confere a empresa uma vantagem competitiva. Segundo Benavides, 2012, o capital intelectual pode ser divido em três componentes: o capital estrutural, que é o conhecimento de propriedade da empresa; o capital relacional, aquele que se origina pelas relações que a organização tem com os atores do ambiente em seu entorno; e por fim o capital humano, a ligação entre a experiência, habilidades profissionais, atitudes, iniciativa, liderança presentes em cada indivíduo da organização. Dessa maneira o capital intelectual que têm ganhado destaque na gestão estratégica organizacional por ser um condutor da geração de vantagens competitivas, sendo importante a sua mensuração, uma vez que a organização precisa conhecer o valor que possui de capital intelectual para poder tornar seu uso eficiente Pulic (2004). Uma das grandes dificuldades na mensuração do capital intelectual está no fato de sua intangibilidade e que a contabilidade tradicional não considera o capital intelectual como um ativo organizacional. Porém Pulic (2004) apresenta o modelo Value Added Intellectual Coefficient (VAIC™), que busca mensurar a eficiência do capital intelectual através da utilização de dados contábeis. Segundo Pulic (2004), os indicadores tradicionais, como receita, lucro e dividendo, na economia do conhecimento, não conseguem satisfazer as necessidades de informação para os gestores sobre o desempenho organizacional, uma vez que apresentam resultados sobre quantidade ao invés da relação entre os resultados organizacionais e a eficiência no uso dos recursos. Assim através do modelo de Pulic (2004), o capital intelectual é entendido como um recurso estratégico para as organizações, sendo que a aplicação de recursos no capital intelectual deve ser considerada como um investimento pela organização. Uma maneira para se medir a eficiência organizacional na criação de valor, segundo Lin e Huang (2011), pode ser através da diferença entre o retorno do capital investido (return on invested capital – ROIC) e o custo médio ponderado de capital (weighted average cost of capital – WACC). A diferença entre o ROIC e o WACC é um componente da medida de desempenho Economic Value Added (EVA), representando margem de retorno em relação à criação de valor organizacional (Copeland, Koller, & Murrin, 2002). Uma organização é considerada com eficiência na utilização de seus recursos quando o ROIC é maior que o WACC, e é considerada com fraca eficiência no caso contrário (Lin & Huang, 2011). Portanto as organizações podem avaliar o impacto que o investimento no capital intelectual provoca no retorno em margem de criação de valor por meio da diferença entre o ROIC e o WACC. Dessa maneira a organização consegue obter informações sobre o resultado do investimento no capital intelectual em retorno financeiro, auxiliando na tomada de decisão e permitindo a geração de vantagens competitivas.
Método de investigação: A presente pesquisa caracteriza-se como aplicada quantitativa descritiva documental sobre a distribuição de retorno do investimento nos componentes do capital intelectual. Foi utilizada na pesquisa a metodologia da análise da regressão multivariada de dados em painel. A utilização de dados em painel permite o controle de variáveis omitidas que não podem ser observadas, uma vez que há a análise das variações ao longo do tempo nas variáveis dependentes das entidades. As variáveis independentes são os componentes do modelo VAIC™, já a variável dependente corresponde à subtração entre o ROIC e o WACC. A pesquisa considerou para análise uma defasagem de t-1 e t-2 das variáveis independentes, ou seja, uma defasagem de dois anos do investimento medida pelos componentes do VAIC™ em relação ao seu retorno. As variáveis independentes são os componentes do modelo VAIC™, já a variável dependente corresponde à subtração entre o ROIC e o WACC. A pesquisa considerou para análise uma defasagem de t-1 e t-2 das variáveis independentes, ou seja, uma defasagem de dois anos do investimento medida pelos componentes do VAIC™ em relação ao seu retorno. Após a etapa da regressão de dados em painel foi aplicado o método da Simulação de Monte Carlo utilizando a equação da regressão com o objetivo de extrapolar a distribuição dos componentes do VAIC™ para calcular as probabilidades relacionadas ao retorno em criação de valor. Dessa maneira, por meio da utilização da Simulação de Monte Carlo o estudo analisa o risco envolvido no retorno do investimento no capital intelectual na organização de acordo com a probabilidade obtida.
Resultados, conclusões e suas implicações: A pesquisa obteve como resultado a identificação da significância estatística dos componentes do VAIC™ na variação da criação de valor (margem), sendo que a eficiência do capital humano tem um forte impacto positivo na criação de valor, enquanto que a eficiência do capital estrutural tem uma importância negativa na diferença entre ROIC e WACC. Já a eficiência do capital estrutural, ou seja, o capital financeiro e físico, não apresentou significância na regressão. No estudo não foi possível validar a defasagem do investimento em relação ao retorno em criação de valor para nenhum dos componentes do VAIC™. Porém, ao analisar outros estudos similares, não se pode descartar o uso da defasagem em novos estudos, uma vez que a defasagem pode ser significativa no resultado da regressão de dados em painel. Ao empregar a simulação de Monte Carlo foi obtida a probabilidade de 38,99% de o retorno do investimento em capital intelectual ser negativo. A diferença entre o ROIC e o WACC, através do investimento no capital intelectual, para as empresas utilizadas na base amostral, foi mais sensível ao indicador de capital humano. Isso mostra que há certo risco no investimento no capital intelectual, sendo necessária a aplicação de políticas de controle para as empresas da amostra, ao realizarem projetos de investimento no capital intelectual, objetivando minimizar o risco inerente ao investimento para a criação de valor. Por outro lado, o resultado demonstra que uma das poucas maneiras de empresas de capital intensivo obter ganhos na diferença entre o ROIC e o WACC está no investimento em capital humano. Conclui-se que as empresas da base amostral têm a possibilidade de aumentar a margem entre o ROIC e o WACC, ou seja, a criação de valor, por meio do investimento no capital intelectual, e especificamente no capital humano, uma vez que nas empresas da base amostral, há um melhor rendimento na margem de criação de valor pelo investimento no capital humano, do que o investimento no capital estrutural. Porém, as empresas necessitam realizar programas e técnicas de controle para reduzir o risco do investimento no capital intelectual sobre a criação de valor. Esse resultado é importante, uma vez que a pesquisa foi realizada com empresas de capital intensivo no contexto brasileiro. Nesse tipo de base amostral, era viável presumir que o capital humano não teria forte representatividade na criação de valor. No entanto o resultado mostra que mesmo em um contexto setorial de capital intensivo, o capital humano é um recurso que gera margem em valor organizacional. Este trabalho pode ser considerado como um estudo inicial sobre o uso de modelos de pesquisa operacional na mensuração de capital intelectual no Brasil. Dessa maneira há a possibilidade da realização de estudos aplicados posteriores avaliando o impacto do investimento no capital intelectual na decomposição do EVA, buscando maximizar o retorno entre margem de criação de valor e crescimento de faturamento, utilizando programação linear e outras técnicas matemáticas. Outra possibilidade de pesquisa futura está na análise das causas do retorno negativo no capital humano constatado pela probabilidade obtida na simulação de Monte Carlo, que pode ser realizada utilizando técnicas de aprendizado estatístico.
Referências bibliográficas: Benavides, L. E. (2012) Medición, valoración y determinación del impacto del capital intelectual en la generación de valor en la empresa. Rev. Tendencias, 13(1), 100-115.
Copeland, T., Koller, T., & Murrin, J. (2002) Avaliação de empresas – Valuation: calculando e gerenciando o valor das empresas (3a ed.) São Paulo: Pearson Makron Books.
Edwards, J. S., Ababneh, B., & Shaw, D. (2009) Knowledge management: a review of the field and of OR’s contribution. Journal of Operational Research Society, 60(1), 114-125.
Lin, C., & Huang, C. (2011) Measuring competitive advantage with an asset-light valuation model. African Journal of Business Management, 5(13), 5100-5108.
Pulic, A. (2004) Intellectual capital – does it create or destroy value? Measuring Business Excellence, 8(1), 62-68.
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