Resumo: Propósito do Trabalho: A evidenciação contábil sempre foi um dos focos de discussão na academia e nos órgãos que ajudam a construir a evolução das Ciências Contábeis. Goulart (2003) versa que a escolha da forma de divulgação de informações faz parte dos objetivos da contabilidade para sua eficácia, ou seja, a evidenciação está diretamente relacionada aos objetivos da contabilidade. Iudícibus (2000) afirma que “o objetivo básico dos demonstrativos financeiros é prover informação útil para a tomada de decisões econômicas”. Dessa maneira o autor aponta o quão importante é a evidenciação das informações relacionadas a eventos que afetaram ou possam vir a afetar a situação patrimonial da entidade.
Tendo em vista que uma menor evidenciação do impairment test por parte das empresas pode gerar uma pior qualidade da informação contábil disponível para o usuário e consequentemente resultar em tomadas de decisões enviesadas, afetando o desempenho da empresa e do mercado. Nesse sentido, o presente trabalho levanta a seguinte pergunta de pesquisa: Qual é o nível de evidenciação do impairment test das empresas listadas na BM&FBovespa? Para tanto, se objetiva identificar o nível de evidenciação do impairment test de tais empresas por meio da Teoria da Resposta ao Item. Espera-se encontrar um ranking de proficiência das empresas da BM&FBovespa no que diz respeito aos seus níveis de evidenciação do teste de imparidade utilizando-se a Teoria da Resposta ao Item.
Base da plataforma teórica: A evidenciação constitui compromisso inalienável da Contabilidade com seus usuários e com seus próprios objetivos, e diz respeito à apresentação ordenada de informações quantitativas e qualitativas, propiciando uma base adequada de informações para usuário (Iudícibus, 2000). Segundo Ponte e Oliveira (2004), o principal método de evidenciação contábil contempla as demonstrações contábeis tradicionais, que interagem com outros métodos de evidenciação, como as notas explicativas, relatório da diretoria e pareceres de auditoria. De acordo com Lima (2009), a correta evidenciação diminui a assimetria informacional entre as empresas e seus stakeholders, além de ser uma das principais formas de comunicação entre a companhia e os interessados em avaliar o desempenho da administração. No Brasil, o teste de redução no valor recuperável de ativos é normatizado pelo CPC-01, emitido em 2007. Em 2010, sua primeira revisão, CPC-01 (R1), foi aprovada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por meio da Deliberação CVM nº 639 de 2010, que revogou e substituiu a Deliberação CVM nº 527 de 2007.
No âmbito internacional, o impairment test é regulado pela norma SFAS 144 emitida pelo FASB (órgão estadunidense criado para padronização de procedimentos contábeis), e pela norma IAS 36, Impairment of Assets, emitida pelo IASB (comitê de normas internacionais de contabilidade), que trouxe de forma detalhada como as perdas por desvalorização de ativos devem ser mensuradas.
Os pronunciamentos da FASB a respeito do teste de impairment diferem dos pronunciamentos do IASB em alguns pontos importantes. Segundo o SFAS 144, perda por impairment é mensurada como a diferença entre o Valor Justo do ativo e seu saldo contábil e, após reconhecida a perda, esta não poderá ser revertida. Já o IAS 36 versa que a perda por impairment é mensurada como a diferença entre o valor recuperável e valor contábil, definindo valor recuperável como o maior valor entre o preço líquido de venda do ativo e o seu valor em uso. Ainda segundo o IAS 36, a perda por impairment anteriormente reconhecida deverá ser revertida quando ocorrerem mudanças das estimativas usadas para determinar o valor recuperável dos ativos (exceto goodwill).
De acordo com Andrade, Tavares e Valle (2000), a Teoria da Resposta ao Item (TRI) é um conjunto de modelos matemáticos que procura representar a probabilidade de um indivíduo dar uma resposta a um item como função dos parâmetros do item e da sua habilidade. Ainda segundo os autores, essa relação é expressa de forma que, quanto maior a habilidade, maior a probabilidade de acerto do item. Os modelos propostos pela literatura dependem fundamentalmente de três fatores: (i) da natureza do item (dicotômicos ou não dicotômicos); (ii) do número de populações envolvidas (apenas uma ou mais de uma); e (iii) da quantidade de traços latentes que está sendo medida (apenas uma ou mais de uma). A Teoria de Resposta ao Item é empregada desde os anos 80 na avaliação educacional, inicialmente nos EUA, mas vem se expandindo para outros países e áreas (Vargas, et al. 2008). No tocante à sua aplicação em outras áreas no Brasil, pode-se citar como exemplo a análise das práticas de Gestão da Qualidade Total (Alexandre, et al., 2002), na gestão escolar (Machado et al., 2009), entre outros. No que se refere à área contábil, a TRI está sendo utilizada principalmente na avaliação de intangíveis nas organizações (Vargas, 2007; Vargas, et al., 2008).
Método de investigação: Para atingir o objetivo proposto por esse trabalho, primeiramente criou-se um instrumento composto por 15 itens. Cada item permitindo uma resposta dicotômica (divulga/não divulga). Tal instrumento foi construído com base no CPC 01 (R1), adaptando os itens 126, 129, 130 e 131 e suas diretrizes. Posteriormente, verificou-se junto à base de dados do programa Economática quais empresas da BM&F Bovespa, com exceção das empresas do setor financeiro (por possuírem particularidades e normas específicas emitidas pelo Banco Central), apresentaram saldo nas contas de “Perdas pela não recuperabilidade de ativos” e/ou “Reversão de perdas pela não recuperabilidade de ativos” nos exercícios de 2011, 2012, 2013 e 2014. Pressupôs-se que as empresas que apresentaram saldo em tais contas realizaram teste de impairment ao longo do exercício. Ao final, obteve-se a amostra inicial apresentada na tabela 3.A amostra inicial foi composta por 31 empresas, somando 68 observações. Entrou-se nas Demonstrações Financeiras das respectivas empresas para cada exercício que se verificou saldo nas contas de “Perdas pela não recuperabilidade de ativos” e/ou “Reversão de perdas pela não recuperabilidade de ativos”. Averiguou-se que, em algumas empresas, a conta de “Perda pela não recuperabilidade de ativos” registrada no Economática tratava-se de “Perda para crédito de liquidação duvidosa”. Tais empresas foram retiradas da amostra, restando assim 18 empresas e 35 observações. A seguir, fez-se o check list utilizando o instrumento construído, atribuindo valor 1 para o item que a empresa divulgou, e valor 0 caso a empresa não tenha divulgado o item do instrumento.
Por fim, com os dados tabulados, utilizou-se a Teoria da Resposta ao Item, por meio do software Bilog-MG, para a calibração dos itens, construção da escala do traço latente (nível de evidenciação do teste de impairment) e atribuição da proficiência do traço latente para cada empresa da amostra. Como o instrumento permite respostas somente dicotômicas, foi utilizado o modelo logístico unidimensional de 2 parâmetros (ML2) para medir o traço latente proposto por esse trabalho, como descrito pela equação 1 (Andrade, Tavares, Valle, 2000).
Resultados, conclusões e suas implicações: Visto que uma menor evidenciação do teste de impairment pelas empresas pode gerar uma pior qualidade da informação contábil, gerando tomadas de decisões enviesadas e, portanto, afetando o desempenho da empresa e do mercado, o presente trabalho teve como objetivo identificar o nível de evidenciação do teste de imparidade dos ativos das empresas da BMF&FBovespa, utilizando-se a Teoria da Resposta ao Item.A primeira fase do Bilog-MG traz uma análise descritiva dos dados pela Teoria Clássica. O item 1 do instrumento construído apresentou um baixo índice de correlação bisserial, sendo retirado da amostra para não impedir a calibragem dos outros itens. Nenhuma empresa evidenciou os itens de número 3, 4, 6, e 12 e, por esse motivo, eles também foram retirados do instrumento.
Na segunda fase do Bilog-MG, os itens 1, 3, 4, 6 e 12 não calibraram como previsto na fase anterior. Os itens 14 e 15 também não calibraram, restando para a análise os itens 2, 5, 7, 8, 9, 10, 11 e 13. Posteriormente, repetiu-se a primeira e a segunda fase para calibragem somente com os itens restantes. Mesmo apresentando itens com o parâmetro b entre -2,05 e 3,27, o instrumento mostrou-se eficiente para medir indivíduos que apresentam o traço latente (nível de evidenciação do teste de impairment) entre -3 a 1 desvios padrão da média 0.
Por fim, na terceira fase do Bilog-MG, foi calculado a proficiência do traço latente para todas as empresas que compuseram a amostra e seus respectivos anos que divulgaram informações com teste de impairment. A empresa EMAE – Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A, no ano de 2013, liderou o ranking gerado pelo instrumento construído, e a empresa Qualicorp obteve o pior nível de evidenciação do teste de impairment para a amostra do trabalho.
O ranking gerado na terceira fase do Bilog-MG se diferencia dos resultados obtidos por outros trabalhos com tema semelhante, e torna difícil a comparação. O fato que mais chamou atenção após o estabelecimento do ranking e do traço latente das empresas foi a irregularidade do nível de evidenciação do teste de impairment das empresas de um ano para o outro. Poucas mantiveram uma constância do seu traço latente, ou apresentaram uma melhoria significativa. Esse fato mostra que as empresas, mesmo quando evidenciam o Teste de Recuperabilidade de Ativos, o fazem sem muita preocupação com a constância dessas informações durante os anos.
De acordo com o presente estudo, o número de empresas que evidenciou o Teste de Impairment foi 3 em 2011, subiu para 10 em 2012, depois 11 em 2013, mantendo-se constante em 2014. Percebe-se que há pouca evidenciação do Teste de Recuperabilidade de Ativos por parte das empresas brasileiras, considerando o total de empresas da BM&FBovespa. Vale ressaltar que, assim como Costa e Magalhães (2012), esse trabalho evidencia o pouco cumprimento das exigências do CPC 01 (R1) quanto aos itens que devem ser evidenciados pelas empresas que reconheceram perda por valor não recuperável de ativo.
Referências bibliográficas: Alexandre, J. W. C., Andrade, D. F. D., Vasconcelos, A. P. D., & Araújo, A. M. S. D. (2002). Uma proposta de análise de um construto para medição dos fatores críticos da gestão pela qualidade por intermédio da Teoria da Resposta ao Item. Gestão e Produção, 9(2), 129-141.
Andrade, D. F., Tavares, H. R., & da Cunha Valle, R. (2000). Teoria da Resposta ao Item: conceitos e aplicações. ABE, Sao Paulo.
Costa, L. L. R. C. & Magalhães, R. L. R. (2012). Análise qualitativa da divulgação da perda por irrecuperabilidade de ativos por empresas listadas na BM&FBOVESPA. 19º Congresso Brasileiro de Contabilidade.
Goulart, A. M. C. (2003). Evidenciação contábil do risco de mercado por instituições financeiras no Brasil (Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo).
Lima, E. M. (2009). Análise comparativa entre o índice disclosure e a importância atribuída por stakeholders a informações consideradas relevantes para fins de divulgação em instituições de ensino superior filantrópicas do Brasil: uma abordagem da teoria da divulgação. (Dissertação de Doutorado, Universidade de São Paulo.)
Ponte, V. M. R., & Oliveira, M. C. (2004). A prática da evidenciação de informações avançadas e não obrigatórias nas demonstrações contábeis das empresas brasileiras. Revista Contabilidade & Finanças, 15(36), 7-20.
Vargas, V. D. C. C. D., Selig, P. M., Andrade, D. F. D., & Ribeiro, J. L. D. (2008). Avaliação dos intangíveis: uma aplicação em capital humano. Gestão e produção. São Carlos, SP. Vol. 15, n. 3 (set.-dez. 2008), p. 619-634.
Zandonai, F., & Borba, J. A. (2009). O que dizem os achados das Pesquisas Empíricas sobre o teste de impairment: uma análise dos Journals em língua inglesa. Contabilidade, Gestão e Governança, 12(1).
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