Resumo: Propósito do Trabalho: O objetivo deste estudo é analisar a percepção dos discentes do curso de Ciências Contábeis da cidade de Campina Grande – PB, no segundo semestre de 2014, que já cursaram a disciplina Teoria da Contabilidade, sobre a contribuição da religião Católica para a evolução histórica da Contabilidade, tendo em vista a real contribuição da religião para a Ciência Contábil e a importância de se conhecer a História da Contabilidade, seja durante a formação acadêmica como na prática da profissão.
Acreditando que a religião foi um dos protagonistas na evolução da Contabilidade, o presente trabalho se justifica pela contribuição no auxílio à compreensão da importância que a religião – especificamente a Igreja Católica – teve no processo evolutivo da Contabilidade. Outra justificativa para a abordagem deste tema é a escassez da literatura sobre História da Contabilidade no Brasil, como afirmam Sá (2009) e Carmona e Ezzamel (2006), ao mencionarem que a pesquisa sobre a relação entre a Contabilidade e a religião é extremamente escassa. Silva e Martins (2011, p. 13) também acrescentam que: “Estudar a evolução da Contabilidade nas mais variadas épocas é prestar um serviço à classe contábil, em que se abrem no presente as portas do passado, iluminando os caminhos futuros.”.
Para esse propósito os objetivos específicos são: (a) descrever como a religião católica ajudou a Contabilidade no seu caminho rumo à ciência; (b) identificar o nível de conhecimento dos alunos acerca da participação da religião católica na História da Contabilidade; e (c) demonstrar a importância do estudo da História da Contabilidade nos cursos de graduação.
Base da plataforma teórica: As contribuições da Igreja Católica para a Contabilidade foram tanto diretas quanto indiretas. Jochem (2013) esclarece que, principalmente durante a Idade Média, a Igreja Católica era a única instituição que controlava toda a vida e rotina da sociedade, sendo dona do poder espiritual e, também, do poder temporal.
Também sobre essa temática, Sá (2009) enfatiza que, na Idade Média, no Ocidente, a implantação do Catolicismo, com as fortes organizações dos conventos, abadias e mosteiros, onde todas as funções eram desempenhadas (produção, circulação, distribuição e consumo de riqueza), ofereceu bases para aplicações contábeis complexas.
Dessa forma, a acumulação de riquezas por parte da Igreja era enorme, e, para controlar eficientemente esse patrimônio, utilizava-se dos recursos contábeis disponíveis. “O poder temporal da Igreja fez com que ela tivesse um vasto patrimônio, exigindo, por isso, um registro de forma sistematizada” (SILVA; MARTINS, 2011, p. 50), onde os frades, o clero em geral, eram os encarregados das escriturações.
Durães (2003) também trata da influência da Igreja Católica na Contabilidade no período medieval. Nessa época, a referida entidade concentrava todo o conhecimento sistematizado, uma vez que as bibliotecas ficavam em seu poder. Desse modo, o acesso às informações e a educação era privilégio do clero e da classe dominante.
Mesmo estimulada, principalmente, por interesses próprios, a Igreja colaborou significativamente para a evolução histórica da Contabilidade, e exatamente por isso ela buscou sempre dominar e controlar essa ciência nascente. Quando a Contabilidade dava sinais de evolução fora da esfera religiosa católica, a Igreja tentava interferir nesse processo. O que aconteceu com o sistema numérico arábico é um exemplo disso.
Mesmo de início se opondo aos números arábicos, percebe-se que a Igreja Católica acabou reconhecendo as vantagens do novo sistema numérico para o controle patrimonial recebendo o apoio e a adoção gradativa de alguns dos próprios membros da Igreja, a exemplo de Luca Pacioli e de Gilberto, Arcebispo de Ravenna.
A Igreja Católica também contribuiu para a História da Contabilidade, por meio das Cruzadas e das Ordens Militares Religiosas também criadas nesse período com o objetivo recuperar o domínio de Jerusalém que estavam com os turcos muçulmanos. As conquistas da guerra santa contribuíram indiretamente para a contabilidade. Segundo Jochem (2013) e Hendriksen e Van Breda (2014), os Templários apropriaram-se de fortunas, tornando-se uma das instituições mais ricas e poderosas da época, cuja imensa riqueza acumulada passou a servir de capital de giro para empréstimos ao papa, aos reis e aos príncipes, com cobrança de juros anuais, ou seja, transformaram-se em verdadeiros bancos e casas de custódias, possuindo, inclusive, filiais em vários países da Europa.
Jochem (2013) continua destacando que, para a gestão do patrimônio, os Templários estabeleceram sistemas de controles avançados para a época, utilizando-se como instrumentos os métodos contábeis existentes, contribuindo diretamente para a formação, divulgação e aperfeiçoamento das partidas dobradas, bem como criando as principais raízes da contabilidade bancária.
Santos et al. (2007) complementam dizendo que as Cruzadas também contribuíram para a Contabilidade, por meio das oportunidades econômicas oferecidas pela referida guerra santa, uma vez que, ao contribuir para o renascimento das atividades comerciais, resultou em um aumento por todo tipo de serviço especializado, entre os quais estavam os sistemas contábeis.
Método de investigação: Quanto aos objetivos, a pesquisa se classifica como descritiva, pois procura evidenciar termos que mostram a relação existente entre Contabilidade e religião, bem como identificar o nível de conhecimento dos alunos do curso de Ciências Contábeis da cidade de Campina Grande – PB sobre a contribuição da religião Católica para a evolução histórica da Contabilidade.
Quanto aos procedimentos utilizados, é do tipo bibliográfico e estudo de caso. O levantamento bibliográfico foi realizado, de modo geral, na Internet, por meio de palavras-chave no sítio de pesquisa Google, e em livros de Contabilidade.
Quanto à abordagem do problema, este estudo se caracteriza como uma pesquisa qualitativa, pelo fato de buscar analisar a percepção, no que se refere à contribuição da religião Católica para a Contabilidade, dos alunos de Ciências Contábeis de Campina Grande – PB.
Neste estudo, o universo pesquisado foi representado pelos discentes do curso de Ciências Contábeis da cidade de Campina Grande – PB, no segundo semestre de 2014, que já cursaram a disciplina de Teoria da Contabilidade. Na referida cidade, três instituições de ensino superior (IES) disponibilizam o curso de Ciências Contábeis, sendo que uma instituição foi excluída do universo da pesquisa, por não contemplar, na sua estrutura curricular, a disciplina Teoria da Contabilidade ou outra semelhante.
A amostra utilizada nesta pesquisa foi não probabilística por acessibilidade ou conveniência. O instrumento para coleta de dados foi um questionário impresso, elaborado com base no referencial teórico, sendo aplicado pessoalmente nas turmas que fazem parte do universo da pesquisa.
Para assegurar o êxito, é importante a testagem do questionário com um pequeno grupo da amostra para evitar erros maiores, quando a coleta de dados estiver sendo realizada. O Pré-teste foi realizado com 3 docentes, sendo 2 com experiência no ensino de teoria da Contabilidade.
O questionário foi aplicado em sala, no horário das aulas. Não foi pré-determinado o dia da semana, nem a disciplina por período para aplicação do questionário. A aplicação foi baseada na acessibilidade e conveniência do universo da pesquisa e da pesquisadora.
Para a tabulação dos dados, foi utilizado o programa de planilhas eletrônicas Microsoft Office Excel 2010, também utilizado para a criação dos gráficos e/ou tabelas.
Resultados, conclusões e suas implicações: Na evolução do pensamento contábil, percebe-se que a Contabilidade é uma área de conhecimento cuja evolução sempre esteve associada ao desenvolvimento das atividades mercantis, econômicas e sociais. Em todas as etapas da história da humanidade, a Contabilidade esteve presente, registrando, controlando, informando e criando mecanismos de crescimento das riquezas.
Se, por um lado, a religião tem um forte potencial de provocar transformações sociais, seja no âmbito econômico, político e cultural, a Contabilidade, ao estar inserida em um ambiente interdisciplinar, como se caracterizam as mais diversas ciências sociais, também sofre as diversas influências nas quais os seres humanos têm se deixado conduzir, a exemplo da religião.
Ao longo da sua história, a Contabilidade tornou-se, em períodos específicos, um instrumento a serviço de determinados grupos, a fim de manter o status quo e garantir a dominação sobre os outros. Não obstante a intenção empregada no uso da Contabilidade, os referidos grupos contribuíram fortemente para o aperfeiçoamento e evolução dessa ciência, sendo esse o caso da religião.
No início deste estudo, fixou-se como objetivo analisar a percepção dos discentes do curso de Ciências Contábeis da cidade de Campina Grande – PB, no segundo semestre de 2014, que já cursaram a disciplina de Teoria da Contabilidade, sobre a contribuição da religião para a evolução histórica da Contabilidade.
A pesquisa constatou, por meio da percepção dos discentes, a dificuldade de se relacionar Contabilidade e religião, principalmente porque os dois grupos em análise parecem estar em lados antagônicos.
Essa dicotomia que parece separar Contabilidade de religião se evidenciou na Parte II (percepção sobre a relação entre Contabilidade e religião) do questionário, que apresentou uma divisão equilibrada de opiniões quanto à questão da relação entre Contabilidade e religião.
A complexidade da percepção da contribuição da religião na evolução histórica da Contabilidade se evidenciou nas questões específicas do questionário (Parte III), onde a maioria dos discentes se considerou inapta para responder a todas as questões, e se justificou quando 43,6% dos respondentes afirmaram que não foi lecionada na graduação a contribuição da religião na evolução histórica da Contabilidade (Parte IV).
Por outro lado, 83,6% dos discentes consideram importante o conhecimento da História da Ciência Contábil, e 40% afirmaram que deveria existir uma disciplina específica sobre História da Contabilidade.
Como sugestões para investigações futuras, sugerem-se: (a) o estudo sobre a contribuição das demais religiões, que não foram objeto desse estudo, para a evolução histórica da Contabilidade; e (b) o impacto da religião no processo de harmonização das normas internacionais de Contabilidade.
Referências bibliográficas: CARMONA, Salvador; EZZAMEL, Mahmoud. Accounting and religion: a historical perspective. Accounting History, v. 11, p. 117-127, maio 2006.
DURÃES, Arnóbio Neto Araújo. Um estudo da evolução histórica da Contabilidade no contexto da visão das escolas europeia e americana frente à abordagem da evidenciação nas informações contábeis brasileiras. 2003. 163f. Dissertação (Mestrado em Controladoria e Contabilidade Estratégica) – Faculdade Escola de Comércio Álvaro Penteado, São Paulo, 2003.
HENDRIKSEN, Eldon S.; VAN BREDA, Michael F. Teoria da Contabilidade. Tradução de Antonio Zoratto Sanvicente. 1. ed., 11. reimpr. São Paulo: Atlas, 2014.
JOCHEM, Laudelino. Contabilidade: uma visão crítica da evolução histórica. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2013.
SÁ, Antônio Lopes de. História geral e das doutrinas da Contabilidade. 1. ed., 7. reimpr. São Paulo: Atlas, 2009.
SILVA, Antonio Carlos Ribeiro da; MARTINS, Wilson Thomé Sardinha. História do pensamento contábil. 2. ed. Curitiba: Juruá, 2011
SANTOS, José Luiz dos; SCHMIDT, Paulo; FERNANDES, Luciane Alves; MACHADO, Nilson Perinazzo. Teoria da Contabilidade: introdutória, intermediária e avançada. São Paulo: Atlas, 2007
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