Resumo: Propósito do Trabalho: O objetivo deste trabalho foi criar um modelo que possibilitasse prever o parecer prévio que o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) emite em relação às contas das Prefeituras Municipais Paulistas. Para isso foi necessário entender se existem e quais são os determinantes desse parecer utilizando como técnica estatística a regressão logística, como variável categórica o parecer do TCESP em relação às contas municipais e como variáveis explicativas diversos aspectos econômico-financeiros, administrativos e dados gerais dos municípios paulistas no período compreendido entre os exercícios de 2008 a 2013. A proposta foi que partir desses dados seriam criados dois modelos que permitissem a predição do parecer do Tribunal de Contas, um com os dados relativos ao ano corrente e outro relativo ao ano anterior. Os modelos criados, caso fossem considerados significativos, poderiam auxiliar os gestores municipais indicando quando o município estivesse se colocando em uma situação mais arriscada, criando um sistema de pontos de atenção. Além disso, o modelo poderia auxiliar também a fiscalização do TCESP, criando um método de seleção capaz de apontar quais são os municípios com maior probabilidade de apresentar problemas.
Base da plataforma teórica: As principais bases foram:
-A Teoria dos Ciclos Político-Econômicos, proposta por William Nordhaus em 1974, estabelece que os agentes políticos, com o conhecimento de que os votos dos eleitores são influenciados por sua situação econômica, interferem na economia com objetivo de aumentar sua aprovação e com isso ter sucesso nas urnas. Em linhas gerais, essa teoria diz que a economia apresenta uma tendência cíclica antes das eleições, resultado de um estímulo consciente dos agentes políticos com o objetivo de criar um ambiente econômico favorável o suficiente para influenciar o resultado eleitoral. Esses esforços se concentram principalmente na diminuição artificial da taxa de desemprego e/ou aumento do produto interno, renda ou poder de compra dos eleitores. Esse pseudo crescimento econômico gerado é consequência de uma aplicação ineficiente dos recursos públicos, sem observar as repercussões a médio e longo prazo e acaba por gerar inflação após as eleições.
Indicadores da Gestão Municipal
- Indicadores de gestão propostos por Matias e Campello: Seguindo a classificação sugerida pela Fundação Instituto de Administração (FIA), Matias e Campello (2000) dividiram os aspectos de análise da gestão municipal em socioeconômicos, organizacionais e financeiros. Os aspectos socioeconômicos dizem respeito às condições gerais do município, como aspectos demográficos, de atividade econômica e integração regional. Nos aspectos organizacionais são tratados os componentes estruturais da administração municipal, como estrutura fazendária e de planejamento e controle. Os aspectos financeiros são aqueles relacionados à necessidade de recursos do município, suas fontes de financiamento, estrutura de captação e de aplicação. A partir dos aspectos financeiros, os autores estabeleceram uma série de indicadores com o intuito de permitir que a partir de uma análise sistemática dos mesmos fosse possível chegar a uma conclusão sobre a gestão de recursos financeiros e até mesmo sobre a gestão municipal como um todo.
-Evidências empíricas:
Lopez et al. (2009) elaborou um estudo que teve como objetivo verificar se os indicadores financeiros propostos por Matias e Campello (2009) seriam estatisticamente significativos para prever a aprovação ou rejeição das contas de uma amostra de municípios catarinenses. A técnica estatística utilizada foi a análise discriminante, em que um dos requisitos principais é a normalidade das amostras, por esse motivo, muitos dos indicadores não puderam ser utilizados na análise mesmo após uma tentativa de correção aplicando o logaritmo nas variáveis com distribuição não normal. Apesar dessa limitação das variáveis explicativas utilizadas, em que apenas os indicadores “Participação de Despesa Corrente”, “Operacionalização das Despesas com Pessoal”, “Operacionalização de Receitas e Despesas Totais” e “Dívida Consolidada” foram mantidas, foi encontrado um modelo com significância estatística ao nível de 5% para predição da aprovação ou rejeição das contas.
O trabalho mais representativo para o presente estudo foi o de Pereira (2010),que realizou uma regressão logística para testar várias hipóteses relacionadas à aprovação e rejeição das contas dos municípios baianos. Nesse trabalho ele encontrou várias variáveis explicativas com significância estatística que foram utilizadas no presente estudo.
Método de investigação:
Resultados, conclusões e suas implicações: A partir dos dados foram criados dois modelos: um utilizando as variáveis relativas ao ano sobre o qual foi emitido o parecer e o segundo utilizando as variáveis referentes ao ano anterior, com exceção da variável ano_eleitoral que se manteve igual nos dois modelos. Esse segundo modelo foi uma tentativa de medir as influências da gestão econômico-financeira do exercício passado no seguinte.
O segundo modelo apresentou menor poder explicativo e preditivo que o primeiro, mostrando que em relação às variáveis estudadas o acompanhamento do ano corrente é mais importante do que o resultado obtido no exercício anterior.
No modelo 1, as duas proxies utilizadas para tamanho do município foram significativas, porém apresentaram sinais contrários. A variável ln_populacao aumentou a probabilidade de um parecer desfavorável enquanto o ln_receita_total diminuiu essa probabilidade. Esse resultado vai de encontro ao obtido por Pereira (2010), em que o tamanho do município medido pela população diminuiu a chance de um parecer desfavorável.
A combinação do resultado obtido para as variáveis ln_populacao e ln_receita_total sugere que um município com uma população menor e receita maior terá melhores condições de atender as necessidades de seus habitantes sem que haja descontrole das contas públicas, porém essa questão precisaria ser melhor investigada em futuros trabalhos.
Outro resultado importante do trabalho diz respeito aos gastos com pessoal, tratados através de dois índices: num_pessoal e indice_pessoal. O limite constitucional de despesa com pessoal para os governos municipais apresentou sig 0,125, ou seja, foi significativo apenas ao nível de 15%, enquanto o número de servidores em relação à população do município (num_pessoal) se mostrou mais significativa e apresentou um beta maior. Esse resultado é intrigante, pois o índice de pessoal é avaliado pelo Tribunal ao emitir seu parecer, então intuitivamente deveria ser mais significativo. A significância relativamente menor dessa variável pode ser explicada pelo pequeno número de pareceres negativos motivados pela despesa excessiva com pessoal, como mostra o Comunicado SDG Nº029/2014, emitido pelo TCESP, expondo que no ano de 2010 apenas 5% dos pareceres negativos foram motivados por essa variável. Enquanto isso, um valor acima da média para a variável num_pessoal indica, em teoria, que há um número excessivo de servidores para atender à população e o modelo pode estar captando essa ineficiência da gestão.
O endividamento foi significativo ao nível de 1% e seu beta apresentou o sinal esperado de acordo com o resultado do trabalho de Lopez et al. (2009), em que a dívida consolidada se mostrou relevante e contribuiu para aumentar a probabilidade de parecer desfavorável.
A variável ano_eleitoral foi significativa ao nível de 1%, aumentando em 3,638 a probabilidade de um parecer negativo do TCESP. Esse resultado indica que há um descontrole das contas públicas em anos de eleição e está alinhado com o obtido por Pereira (2010) nos municípios da Bahia. Esse aumento de probabilidade de um parecer negativo complementa os resultados obtidos por Sakurai e Gremaud (2004) na tentativa de positivar a teoria dos ciclos políticos. O estudo citado constatou um aumento da despesa nos anos eleitorais em relação aos anos imediatamente anteriores e posteriores, porém apenas um aumento na despesa pública não é necessariamente evidência de quem houve uma tentativa do dirigente de influenciar a eleição interferindo na economia. Com a informação adicional de que além do aumento da despesa também houve um aumento de reprovação das contas das Prefeituras Municipais pelo Tribunal de Contas há argumentos mais robustos para confirmar validade da Teoria dos Ciclos Políticos.
Referências bibliográficas: Andrada, A. C., & Barroso, L. C. (2010). Parecer Prévio como instrumento de transparência, controle social e fortalecimento da cidadania. Revista do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, 77(4), 53-75.
Coimbra, F. M. (2006). Estado democrático de direito e controle da atividade estatal: breves notas sobre a Controladoria-geral da união. Revista da Faculdade de Direito de Campos, 7(8), 335-357.
Fávero, L. P. (2009). Análise de dados: modelagem multivariada para tomada de decisões. Elsevier.
Gusmão Lopes, J. E., Ribeiro Filho, J. F., Pederneiras, M. M. M. e da Silva, F. D. C. (2009). Requisitos para aprovação de prestações de contas de municípios: aplicação de análise discriminante (ad) a partir de julgamentos do controle externo. Contabilidade Vista & Revista, 19(4), 59-83.
Nordhaus, W. (1975). The political business cycle. Review of Economic Studies, n. 42, p. 169-190.
Pereira, Jeronimo Rosário T. (2010). Gestão e Controle de Recursos Públicos: Um Estudo sobre a Rejeição de Prestação de Contas nos Governos Municipais do Estado da Bahia. Tese de Mestrado, Universidade Federal da Bahia, Salvador.
Sakurai, Sergio N. e Gremaud, Amaury P. (2004). Political business cycles: evidências empíricas para os municípios paulistas. Tese de Mestrado IPE-USP, São Paulo.
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