Resumo: Propósito do Trabalho: Este trabalho visa quantificar os aspectos distributivos e a progressividade dos benefícios de Aposentadoria por Tempo de Contribuição (ATC) e Aposentadoria por Idade (AI) do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Isto é feito por meio do cálculo de Indicadores Previdenciários. São empregados os microdados dos registros administrativos do Ministério da Previdência Social (MPS). Fazem parte do banco de dados 35.000 indivíduos nascidos em 1930, 1935, 1940, 1945, 1950, 1955 e 1960. A hipótese inicial é a existência de progressividade no RGPS. Ou seja, os ganhos oriundos da participação no sistema previdenciário são mais elevados para beneficiários de menor renda, mulheres e indivíduos que se aposentam por idade.
Os trabalhos sobre previdência podem ser divididos em quatro grupos. No primeiro são empregados indivíduos representativos. O segundo grupo utiliza microdados em cross-section, oriundos de Censos ou pesquisas amostrais. O terceiro grupo utiliza microdados em painel. O quarto grupo emprega microdados dos registros administrativos das instituições previdenciárias. São informações reais de contribuintes e beneficiários, por longos períodos. Desta forma, têm a vantagem de retratar com maior acurácia os sistemas previdenciários. Este trabalho pode ser classificado neste quarto grupo.
Este artigo tem a possibilidade de fazer uma contribuição original, por dois motivos. O primeiro é o cálculo dos Indicadores Previdenciários, de forma similar ao verificado em trabalhos internacionais. O segundo é o emprego de registros administrativos do RGPS, em consonância com o estado das artes da literatura. Até onde se tem conhecimento, esta é a primeira vez que os estes microdados são usados com esta finalidade no Brasil.
Base da plataforma teórica: Um sistema previdenciário tem como função básica o pagamento de benefícios de forma continuada às pessoas que deixam o mercado de trabalho, como forma de repor seu padrão de consumo, ainda que de forma parcial. Usualmente o recebimento dos benefícios está condicionado ao pagamento anterior de contribuições previdenciárias, incidentes sobre a renda dos trabalhadores. O RGPS funciona sob o regime de repartição, sem acumulação de recursos. As aposentadorias têm seu valor calculado com base em regras do tipo benefício definido. Ou seja, é conhecida a fórmula de cálculo do benefício e, principalmente, como esta está atrelada ex-ante a um determinado conjunto de condições. Tendo em vista as características apresentadas e a classificação do RGPS, a partir deste ponto a análise terá como foco exclusivamente os regimes de repartição com benefício definido.
Desde o clássico trabalho de Samuelson (1958), retomado por Aaron (1966), sabe-se que um regime de repartição pode aumentar o bem-estar de cada indivíduo na sociedade. Isto acontecerá se a taxa de crescimento das contribuições (dada pelas taxas de crescimento da renda e da população ativa) superar a taxa de juros da economia. No entanto, esta conclusão, embora fundamental e basilar para parcela expressiva da literatura, não dá conta de várias características importantes dos sistemas previdenciários. Um exemplo são os aspectos distributivos e a progressividade.
A redistribuição feita por um sistema previdenciário pode ser classificada em duas categorias. A primeira é a distribuição intergeracional, ou seja, entre gerações ou coortes diferentes. Este processo é inerente à lógica de um regime PAYG, tendo em vista o financiamento dos benefícios de cada geração pela geração seguinte. Cada coorte pode ser impactada de forma distinta pelo sistema previdenciário. A segunda categoria é a distribuição intrageracional. É oriunda da heterogeneidade que existe entre indivíduos de uma mesma coorte, podendo também ser gerada ou acentuada pelo tratamento desigual que o sistema previdenciário dá a trabalhadores da mesma geração. Com base nestas características, define-se que o termo aspectos distributivos está ligado à mensuração tanto da distribuição intergeracional, quanto da distribuição intrageracional. O termo progressividade é empregado no contexto da literatura sobre finanças públicas, conforme discutido, por exemplo, por Musgrave (1985).
Conforme apontam Brown & Ip (2000), aspectos ligados à adequação, equidade e progressividade são relevantes para a avaliação de sistemas de previdência. Barr & Diamond (2006, 2008, 2009) apontam que um sistema previdenciário deve ter o objetivo de proporcionar segurança econômica na velhice, por meio da suavização do consumo, mitigação da pobreza e redistribuição. O design de um sistema previdenciário deve procurar maximizar essa segurança na velhice, o que inclui o custo de provisão do bem. Estes proposições trazem implícitos alguns critérios de avaliação:
• Adequação: capacidade do sistema repor renda e proporcionar uma forma de seguro contra situações econômicas adversas;
• Universalização: proporção de idosos atendida pelo sistema;
• Custo de provisão: entendido de forma intertemporal, com base em variáveis econômico-demográficas que afetam o equilíbrio dos regimes de repartição;
• Eficiência ou equidade individual: maior linkage entre contribuições e benefícios.
Método de investigação: Os aspectos distributivos são calculados com o emprego de quatro indicadores. O primeiro é a Taxa de Reposição (TR). Corresponde à razão entre o primeiro benefício previdenciário Bit, recebido pelo indivíduo i no instante t e a última remuneração anterior à aposentadoria Wit-1.
A primeira vantagem da TR é a simplicidade. É possível calcular a TR com duas observações de duas variáveis, em períodos consecutivos. Sendo um indicador “quase contemporâneo”, a correção de valores nominais é virtualmente irrelevante. A segunda é a comparabilidade: medidas da TR são comparáveis para benefício de sistemas previdenciários distintos. A terceira vantagem é que o cálculo da TR prescinde da escolha da taxa de desconto. O último ponto é a compreensibilidade. Por ser uma medida relativa de poder de compra real, pode ser compreendida até mesmo por leigos.
O segundo indicador é a Taxa Interna de Retorno (TIR), que corresponde à taxa de desconto que iguala fluxos presentes esperados de benefícios e contribuições.
O terceiro indicador é a Alíquota de Contribuição Necessária (AliqNec). Este é um conceito de cunho atuarial, pois representa qual deveria ser a alíquota de contribuição incidente sobre a renda, de tal forma que o valor presente esperado dos benefícios seja igual ao valor presente esperado da renda
A fonte de dados são os microdados oriundos dos registros administrativos do MPS, para 35.000 indivíduos nascidos nas coortes de 1930, 1935, 1940, 1945, 1950, 1955 e 1960. Com base nas informações de bancos de dados distintos, para trabalhadores e aposentados, foram calculados os valores reais de suas contribuições e de seus benefícios para toda sua vida, incluindo o período para qual não se dispõe das informações primárias. Este trabalho significou o acompanhamento de todas as mudanças na legislação previdenciária referente às contribuições entre 1980 e 2006, período de disponibilização das informações. Uma vez construída a base de dados, esta foi empregada para o cálculo dos indicadores descritos previamente. Todos os cálculos foram desagregados por gênero, coorte, quartil de renda e espécie de benefício (Aposentadoria por Tempo de Contribuição e Aposentadoria por Idade).
Resultados, conclusões e suas implicações: Os resultados obtidos fornecem evidências significativas de progressividade no RGPS, para os benefícios de ATC e AI. Esta progressividade é resultado de terem sido encontrados valores mais elevados dos indicadores TR, TIR e AliqNec para as gerações mais antigas, mulheres, beneficiários com menor escolaridade e renda mais baixa. Os resultados são consistentes entre si. Este estudo corrobora para o Brasil os resultados encontrados por outros pesquisadores para vários países, com especial destaque para os EUA. No entanto, com exceção da TR, não há sinais tão claros da existência de windfall no RGPS. Também se pode considerar como um achado a variabilidade verificada para estes indicadores. Aparentemente, há grande heterogeneidade no RGPS que não vinha sendo captada de forma adequada.
O valor médio encontrado para a TR é de elevados 82,5%, bem acima da média internacional. Para todas as categorias de análise foram encontrados princípios de progressividade. Os valores encontrados também são bem mais altos do que os encontrados por outros autores, como Giambiagi & Afonso (2009) e Penafieri & Afonso (2013). Esta parece ser uma diferença relevante dos achados deste trabalho em relação a trabalhos que empregaram grupos de indivíduos representativos. Conclusões similares são obtidas com base nos resultados da TIR. Porém para este indicador, o valor médio de 5,32% a.a não é tão mais elevado do que outros estudos encontraram.
O valor médio obtido para AliqNec, superior a 50%, é bastante elevado frente a outras evidências reportadas na literatura. Embora também tenham sido obtidas evidências de progressividade para este indicador, elas parecem ser menos significativas do que as verificadas com a TR e a TIR. Por exemplo, a diferença entre os quartis de renda é de apenas 12 pontos percentuais. Há valores muito altos, que talvez esteja associada a densidades contributivas baixas, o que faz com que o período contributivo efetivo seja baixo frente do período de recebimento do benefício. É possível que estes valores sejam resultado da arbitragem racional que os contribuintes faziam frente a regras de cálculo do valor do benefício e condições de elegibilidade pouco rigorosas de. Não se pode descartar que, particularmente em épocas mais distantes, tenha havido maior subdeclaração de renda (e contribuições) com relação aos períodos que não faziam parte do cálculo do valor da aposentadoria, o que impactou positivamente AliqNec.
Pode-se considerar que este trabalho fez uma contribuição original à literatura brasileira sobre previdência. Evidências significativas de progressividade no RGPS, para as aposentadorias por tempo de contribuição e por idade são o achado mais relevante .Imagina-se que trabalhos posteriores possam seguir metodologia similar e investigar os benefícios de risco, até o momento pouco abordados no Brasil.
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