Resumo: Propósito do Trabalho: Escândalos corporativos recorrentes resultaram em questionamentos sobre a atuação dos auditores independentes e impuseram a necessidade de respostas da profissão. Entre esses movimentos, pode-se se destacar o Projeto Clarity, sob o patrocínio da International Federation of Accountants (IFAC), com o objetivo de desenvolver e implementar um conjunto de normas profissionais de auditoria, que assegure o desenvolvimento de trabalhos de asseguração de alta qualidade e defina objetivamente as responsabilidades dos auditores independentes. Como resultado, foram editadas as International Standards of Auditing (ISAs), com vigência a partir de 2010. No Brasil, essas normas foram recepcionadas pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC), em consonância com o movimento de harmonização ao padrão internacional.
Dados os seus propósitos e a dimensão da revisão normativa, é razoável se supor que esse novo conjunto de normas profissionais tenha impactado a atuação dos auditores independentes. Decorridos quatro exercícios da adoção das ISAs, é importante identificar se isso ocorreu efetivamente, em particular na parte visível dos trabalhos desses profissionais – o relatório dos auditores.
Nesse sentido, tendo por base os relatórios de auditoria emitidos sobre as demonstrações financeiras das instituições bancárias brasileiras, o presente estudo teve por objetivos: (i) verificar se houve alteração relevante nos tipos de opiniões emitidas sobre a fidedignidade das informações financeiras – relatórios com ou sem modificação – e na apresentação de parágrafos de ênfase e de outros assuntos; e (ii) identificar quais são as principais causas de modificação de opinião dos auditores sobre essas demonstrações e para a apresentação de parágrafos de ênfase e de outros assuntos.
Base da plataforma teórica: A auditoria representa, de forma geral, um instrumento para assegurar a confiabilidade do processo de divulgação financeira, sendo uma referência para que os usuários das demonstrações contábeis, em especial os investidores, possam tomar suas decisões. Ao emitirem opinião sobre a fidedignidade das informações contábeis, entende-se que a atuação dos auditores independentes contribui para um ambiente de negócios caracterizado pela confiabilidade e credibilidade (Newman, Patterson & Smith, 2005; Ojo, 2008; Zagonov, 2011).
Se a auditoria é importante para um ambiente propício à realização de negócios, contribuindo para o aumento da confiança e a redução da assimetria de informações, é mais relevante em segmentos econômicos onde a incerteza da informação é ainda mais crítica, conforme ressaltam Autore, Billingsley e Schneller (2009). Esse preceito se aplica ao setor bancário, tendo em vista que a complexidade das operações e a dificuldade de avaliar o risco das carteiras geram incertezas quanto às informações. Fields, Fraser e Wilkins (2004) reforçam essa percepção, ao destacarem que se a auditoria em um banco não cumpre com sua função de divulgar adequadamente aspectos regulatórios importantes pode expor não só os acionistas da instituição, mas os próprios clientes, a riscos desnecessários.
Não obstante, não são comuns estudos sobre auditoria em mercado financeiro, conforme ressaltam Kanagaretnam, Krishnan e Lobo (2010). Uma prática comum em estudos empíricos sobre auditoria é a exclusão das instituições bancárias da amostra, dadas as particularidades da indústria, seja em relação aos ativos e às operações, seja em relação às exigências de regulação e de controles internos. Por outro lado, Kanagaretnam, Lim e Lobo (2010) destacam que as evidências obtidas em outros segmentos não necessariamente se repetem no sistema bancário, exatamente pelo destacado fato de que os bancos operam em ambiente fortemente regulamentado, monitorados pelos bancos centrais e/ou outras agências reguladoras.
Se em âmbito internacional é destacada a carência de estudos sobre auditoria em sistemas bancários, no Brasil esses estudos com essa característica parecem ser exceções. No caso de estudos que tiveram por base o conteúdo dos relatórios dos auditores – na prática, a única parte visível do trabalho do auditor, tendo em vista que os papeis de trabalho são sigilosos, inclusive por força das normas profissionais – apenas Santos (2008) se concentrou especificamente no sistema financeiro. O autor analisou a relação entre a troca da firma de auditoria e a opinião emitida pelos auditores de instituições financeiras, no período de 1997 a 2007, constatando que a opinião dos auditores externos não foi afetada pelas trocas obrigatórias da firma de auditoria, ou seja, não foi verificada associação entre a emissão de pareceres modificados e a troca de auditoria realizada em atendimento às regras de rodízio, embora tenha constatado uma maior propensão à troca voluntária do auditor que emitiu parecer com opinião modificada.
Os demais estudos realizados no Brasil sobre a opinião dos auditores expressa nos relatórios sobre as demonstrações financeiras tiveram por foco as companhias listadas em bolsa, sendo aplicáveis as restrições de extensão das evidências obtidas à indústria bancária, conforme destacam Kanagaretnam, Lim e Lobo (2010).
Método de investigação: A pesquisa contempla duas categorias de objetivos: uma de natureza quantitativa, que consiste em identificar se após a adoção das ISAs no Brasil houve alteração relevante no número de relatórios de auditoria com ou sem modificação e na apresentação de parágrafos de ênfase e de outros assuntos; e outra de natureza qualitativa, que procura identificar as principais causas para modificação de opinião dos auditores e para a apresentação de parágrafos de ênfase e de outros assuntos.
Como direcionamento para a primeira categoria de objetivos, considera-se o fato de que o conjunto de normas profissionais que entrou em vigor a partir de 2010 – estabelecendo novos critérios para os trabalhos de revisão das demonstrações financeiras, com o propósito de assegurar o desenvolvimento de trabalhos de asseguração de alta qualidade e definir objetivamente as responsabilidades dos auditores independentes – deve se refletir no conteúdo dos relatórios de auditoria emitidos, incluindo o tipo de opinião e o uso de parágrafos de ênfase e de outros assuntos.
Nesse sentido, foram formuladas hipóteses de pesquisa, prevendo que com a adoção das normas internacionais de auditoria aumentou as frequências de “modificação de opinião”, “parágrafos de ênfase” e “parágrafos de outros assuntos” nos relatórios dos auditores independentes sobre as demonstrações financeiras das instituições bancárias brasileiras.
Para a realização dos testes empíricos, a pesquisa teve por referência as demonstrações financeiras das 100 maiores instituições bancárias com atuação no mercado brasileiro, conforme ranking divulgado pelo Banco Central do Brasil. O período considerado foi de 2006 a 2013, para contemplar quatro exercícios antes da adoção da nova estrutura normativa (2006/2009) e quatro anos com a vigência das ISAs (2010/2013). As demonstrações financeiras foram obtidas diretamente nas páginas de cada instituição na internet, sendo identificados e analisados 478 relatórios de auditoria sobre as demonstrações financeiras dessas instituições bancárias.
Para testar as hipóteses de pesquisa são comparados os dados de relatórios com modificação de opinião e com registro de parágrafos de ênfase e de outros assuntos, nos períodos 2006/2009 e 2010/2013, no sentido de confirmar se há diferença estatística relevante entre eles – utilizando-se, para tal, o teste t de diferença de médias.
Resultados, conclusões e suas implicações: A primeira etapa dos testes consistiu em identificar se a frequência de relatórios com modificação de opinião – relatórios com ressalva, com abstenção de opinião ou opinião adversa – teria aumentado substancialmente a partir da adoção das ISAs no Brasil. Os testes empíricos revelaram, inicialmente, a preponderância dos relatórios sem modificação de opinião – sem ressalvas – em todo o período examinado. Considerando-se a segregação por períodos pré e pós-adoção das ISAs, verifica-se crescimento dos relatórios com modificação de opinião, que passaram de 9,84% para 12,98% – comportamento coerente com a previsão da hipótese de pesquisa H1. Os testes revelaram, porém, que essa evolução não é estatisticamente relevante, resultando na rejeição da hipótese de pesquisa.
Quanto aos assuntos mais utilizados como justificativa para modificação de opinião, destacam-se a não reclassificação de operações de arrendamento mercantil e questões de natureza atuarial. A comparação entre os dois períodos – pré e pós adoção das ISAs – revela que a principal alteração ocorreu em relação a apropriação indevida de despesas/receitas. No primeiro período foram identificados apenas dois casos de citação desse motivo, enquanto no segundo isso ocorreu em quatorze oportunidades.
Ainda sobre os tipos de opiniões dos auditores, foi constatado que: (i) as instituições que mais receberam opinião modificada sobre suas demonstrações foram os bancos da Amazônia, Cédula, Rural, Petra, Societé Generale, BNP Paribas e Semear; (ii) a KPMG é a firma com o maior número de clientes entre as instituições bancárias e também é a que apresenta a menor proporção de relatórios com modificação de opinião; (iii) contra intuitivamente, as firmas de auditoria de menor porte, não big four, são as registram a maior proporção de relatórios com modificação.
A segunda parte dos testes se concentrou na avaliação dos relatórios com parágrafos de ênfase, que se aplica nos casos em que o auditor chama a atenção dos usuários das demonstrações para um assunto relevante para a compreensão da situação patrimonial, financeira e de performance da instituição e que esteja contemplado nas demonstrações financeiras. Não se confunde, portanto, com qualquer tipo de ressalva.
Os testes revelaram o aumento dos relatórios com esse tipo de informação no período pós-adoção das ISAs – de 19,17% dos relatórios examinados para 23,51%. Os testes revelam, porém, que essa diferença não é estatisticamente relevante a 90% de confiança, resultando na rejeição da hipótese de pesquisa H2. Sobre os assuntos abordados nos parágrafos de ênfase, destaca-se a referência aos créditos tributários, que apareceram em 34 relatórios e que são verificados em todos os exercícios examinados. Essa preocupação dos auditores se justifica pela relevância desse tipo de questão no âmbito do sistema financeiro, incluindo as incertezas relacionadas à realização de tais ativos. No período pós-adoção das ISAs, a referência a esse tipo de assunto mais do que dobrou em relação aos quatro exercícios anteriores.
A terceira e última etapa dos testes empíricos avaliou os registros de parágrafos de outros assuntos, utilizado em relatórios de auditoria nos casos em que o auditor tem o propósito de oferecer aos usuários das demonstrações financeiras informações adicionais a respeito do trabalho de auditoria desenvolvido. Segregando-se os períodos pré e pós-adoção das ISAs, constata-se um aumento de 40,41% para 51,93% de relatórios com esse tipo de parágrafo, sendo tal diferença estatisticamente relevante, corroborando-se a hipótese de pesquisa H3. A respeito dos temas que justificam a apresentação desse tipo de parágrafo, o mais recorrente refere-se à análise de informações suplementares, com destaque para o exame da Demonstração do Valor Adicionado (DVA). Esse também é o assunto que explica a substancial modificação no número desse tipo de parágrafo nos períodos pré e pós-adoção das ISAs. De se ressaltar, porém, que esse aumento parece ser justificado mais pela mudança na legislação societária, que exigiu a divulgação da DVA pelas companhias abertas, do que pela alteração na norma profissional de auditoria.
Referências bibliográficas: Autore, D. M., Billingsley, R. S. & Schneller, M. I. (2009). Information uncertainty and auditor reputation. Journal of Banking and Finance, 33, 183-192.
Fields, L. P., Fraser, D. R. & Wilkins, M. S. (2004). An investigation of the pricing of audit services for financial institutions. Journal of Accounting and Public Policy, 23, 53–77.
Kanagaretnam, K., Krishnan, G. & Lobo, G.J. (2010). An empirical analysis of auditor independence in the banking industry. The Accounting Review, 85(6), 2011-2046.
Kanagaretnam, K., Lim, C. Y. & Lobo, G. J. (2010). Auditor reputation and earnings management: international evidence from the banking industry. Journal of banking and Finance, 34, 2318-2327.
Newman, D. P., Patterson, E. R. & Smith, J. R. (2005). The role of auditing in investor protection. The Accounting Review, 80(1), 289-313.
Ojo, M. (2008). The role of the external auditor in the regulation and supervision of the UK banking system. Journal of Corporate Ownership and Control, 5(4).
Santos, F. P. (2008). A relação entre o parecer de auditoria e a troca de auditores: uma investigação nas instituições financeiras. Dissertação de Mestrado (Programa de Mestrado Executivo em Gestão Empresarial – FGV). Rio de Janeiro.
Zagonov, M. (2011, April). Audit quality and bank risk under heterogeneous regulations. European Accounting Association, 34rd Annual Meeting. Rome, Italy.
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