Resumo: Propósito do Trabalho: Todas as empresas precisam identificar suas necessidades de liquidez e solvência, ou seja, verificar a capacidade de pagamento a curto e longo prazos. Para isso existe o fluxo de caixa, que é um importante recurso utilizado pelas empresas para acompanhar a entrada e a saída de recursos num período definido de avaliação.
Nas entidades previdenciárias essa rotina é semelhante, em que o gestor do plano tem a necessidade de saber a quantidade de recebimentos e pagamentos futuros, pois uma decisão razoável de investimento exige uma adequada previsão dos fluxos de caixa futuros, podendo ajustar suas decisões às necessidades do plano e dependendo do tipo de plano, esse conhecimento vai demonstrar a capacidade de honrar com os compromissos futuros.
A principal diferença entre o fluxo de caixa de empresas que não sejam de previdência com uma empresa de previdência, é que para os cálculos de recebimentos e despesas de empresas que não são de previdência são realizados com correções dos valores a partir de taxas de juros de remuneração, assim para calcular o valor atual é necessário apenas o fator financeiro de desconto. Já numa entidade previdenciária os cálculos são realizados atuarialmente e além dos juros, existem as probabilidades de o participante estar vivo ou morto (Luccas Filho, 2011).
Este artigo tem como objetivo descrever a metodologia do cálculo do fluxo de caixa atuarial e através de um sistema computacional desenvolver um simulador que o forneça e a consequente formação da reserva matemática, para planos de previdência do tipo benefício definido, além verificar a composição dos recebimentos e pagamentos do plano a valor presente.
Base da plataforma teórica: Um fluxo de caixa mostra as entradas e saídas de recursos do caixa de uma empresa trazidos a valor presente e possibilita os usuários dessa informação a tomarem decisões acerca dos ativos envolvidos.
O fluxo de caixa previdenciário em muito se assemelha a um fluxo de caixa de qualquer outro tipo de empresa, pois apresenta a movimentação financeira, com a peculiaridade da introdução do cálculo atuarial, nos valores recebidos e a receber e os pagamentos efetuados ou a efetuar de uma entidade previdenciária. O cálculo do valor presente é realizado não apenas utilizando a taxa de juros de remuneração, mas consideram também as probabilidades de vida e morte dos participantes do plano.
Este artigo tem como base o modelo apresentado por Rodrigues (2008), sendo apresentada a composição de um fluxo de caixa previdenciário, avaliando as entradas de contribuições futuras e as saídas de benefícios futuros, todos atuarialmente atualizados a valor presente e desenvolvidos num simulador em um sistema computacional.
Serão verificadas as entradas e saídas futuras dos recursos do plano de aposentadoria atualizados a valor presente, para tanto serão necessárias às apurações das contribuições e benefícios nas condições como seguem:
VACFp,c(c) = Valor atual da contribuição futura (concedidos) de um participante p, aposentado, sob o cenário c.
VACFp,aC (c) = Valor atual da contribuição futura (a conceder) de um participante p, aposentado, sob o cenário c.
VABFp,c (c) = Valor atual do benefício futuro (concedidos) de um participante p, aposentado, sob o cenário c.
A questão da longevidade é debatida nos países em virtude do aumento da expectativa de vida das pessoas e da necessidade delas de poderem sempre poder arcar com os custos da manutenção da vida, ser previdente é uma característica importante para a realização disso, assim sendo a previdência, seja ela oficial ou complementar é um ponto a destacar e ser explorado, pois é dela que sai a renda das pessoas quando se encerra o período laboral.
Os planos de previdência sejam eles públicos oficiais ou privados e complementares são classificados por tipo e são três, os de benefício definido (BD), os de contribuição definida (CD) e os de contribuição variável (CV).
A reserva matemática é o valor que, atuarialmente, equilibra as responsabilidades futuras do plano, tanto do participante quanto da própria entidade previdenciárias. Em outras palavras é a obrigação da entidade previdenciária menos a obrigação dos participantes do plano.
Método de investigação: O fluxo de caixa para cada ano de avaliação é dado pela fórmula geral apresentada pela equação geral.
A Equação expressa uma média de todas as iterações realizadas no modelo. Assim, pode-se afirmar que para cada ano avaliado deve-se iterar K vezes os resultados possíveis para cada um dos participantes avaliados, quanto mais iterações, maior a confiabilidade do resultado do modelo. Porém nesse trabalho o tratamento dado à Equação não é o de uma média, mas sim de um valor encontrado a partir da base de dados.
Valor Atual da Contribuição Futura (Concedidos) – (VACFp,c(c)).
Como a própria nomenclatura já diz, são as contribuições futuras decorrentes do decremento aposentadoria por tempo de contribuição, dos benefícios concedidos aos participantes do plano, que serão apurados a valores presente.
Valor Atual da Contribuição Futura (a conceder) – (VACFp,aC (c)).
São apuradas a valor presente as contribuições futuras decorrentes do decremento da aposentadoria por tempo de contribuição dos benefícios a conceder aos participantes do plano.
Valor Atual do Benefício Futuro (concedidos) – (VABFp,c (c))
São apurados os valores dos benefícios futuros concedidos aos participantes do plano, calculados a valores presentes, decorrentes do decremento aposentadoria por tempo de contribuição.
Premissas atuariais.
Nesse trabalho, busca-se determinar os valores das contribuições e benefícios futuros. Para isso é necessária a definição de parâmetros ou premissas. Para Chan, Silva e Martins (2010), as premissas atuariais correspondem a um conjunto de estimativas que se espera realizar em determinado período e com razoável nível de segurança. As premissas utilizadas para o desenvolvimento desse trabalho são apresentadas abaixo:
a)Foram admitidos 81 participantes, todos servidores públicos federais lotados no Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal da Paraíba;
b)Todos tinham entre 24 e 65 anos;
c)Os salários anuais variaram entre R$21.330,96 e R$ 191.472,84;
d)O Custo normal, que corresponde à taxa de contribuição foi fixado em 25%;
e)A idade de aposentadoria r foi de 70 e de 75 anos;
f)A taxa de crescimento salarial foi de 1% ao ano;
g)A taxa de juros atuariais foi de 6% ao ano;
h)A tábua de mortalidade adotada foi a AT2000M;
i)Todas as inferências foram realizadas no sistema computacional Matlab.
Resultados, conclusões e suas implicações: Foram obtidos a partir do simulador desenvolvido no sistema computacional Matlab os valores atuais das contribuições futuras concedidos, os Valores atuais das contribuições futuras a conceder e os Valores atuais dos benefícios futuros (Concedidos), bem como a reserva matemática.
Valores atuais das contribuições futuras (concedidos)
= R$ 30.998.734,51 (trinta milhões, novecentos e noventa e oito mil, setecentos e trinta e quatro reais e cinquenta e um centavos).
Valores atuais das contribuições futuras (a conceder)
= R$ 28.979.888.59 (vinte e oito milhões, novecentos e setenta e nove mil, oitocentos e oitenta e oito reais e cinquenta e nove centavos).
Valor atual do benefício futuro (Concedidos)
VABFp,c (c) = R$ 52.218.127,97 (cinquenta e dois milhões, duzentos e dezoito mil, cento e vinte e sete reais e noventa e sete centavos).
A obrigação do plano para com o participante é o benefício. A obrigação do participante do plano é a contribuição. Então, realizando a operação conforme a Equação 3, considerando que o modelo aqui apresentado se propôs a realizar apenas uma iteração para o conjunto de dados utilizados, chegou-se ao seguinte resultado:
30.998.734,51 + 28.979.888.59 - 52.218.127,97 = 7.760.495,13
Com os resultados desta pesquisa, incluindo-se a criação do simulador que pode ser utilizado para fins práticos e/ou didáticos, buscou-se contribuir com o desenvolvimento da área atuarial, em conjunto com profissionais da contabilidade, que precisam encontrar alternativas para realizar tais procedimentos em suas rotinas dentro de uma empresa de previdência, além de apresentá-las em relatórios periódicos e obrigatórios dos planos de previdência como o Demonstrativo de Resultados da Avaliação Atuarial (DRAA). Isso foi possível pelo desenvolvimento, neste trabalho, de um simulador que possibilitou realizar os cálculos para todos os participantes do plano de forma mais eficiente e rápida, possibilitando, a partir de agora, evoluir nos estudos e aproximar ainda mais a prática da teoria.
O resultado nominal obtido quando confrontadas as receitas (contribuições) com as despesas (benefícios) de R$ 7.760.495,13, garante que o plano inicia com superávit e que as premissas podem ser revistas com mais brevidade, já nos primeiros anos, e assim adequar as receitas as despesas. Esse mesmo valor é a reserva matemática que será formada já no primeiro ano do plano.
O resultado garante tranquilidade ao gestor para alocar os ativos de forma mais conservadora e eficiente de tal maneira que possam garantir a liquidez necessária, bem como a solvência do plano ao longo do tempo. Pode-se, inclusive, reduzir as contribuições dos participantes. Para isso, é necessário um novo cálculo considerando a contribuição adequada para manter o plano em equilíbrio.
A utilização de outros decrementos através de tábuas de múltiplos decrementos poderia dar ainda mais eficiência e precisão no resultado obtido, pois passaria a considerar outros riscos pertinentes a avaliação de um plano de previdência, como a invalidez ou exoneração do trabalho de um dos participantes.
O simulador aqui desenvolvido pode ser utilizado na prática por entidades previdenciárias reais, para qualquer base de dados, de qualquer tamanho, além de poder também ser utilizado por consultorias atuariais que prestam serviços para Regimes Próprios de Previdência Social RPPSs, pois nas avaliações atuariais são necessárias as apresentações desse fluxo de caixa e da reserva matemática.
Referências bibliográficas: Chan, B. L., Da Silva, F. L., & Martins, G. d. (2010). Fundamentos da Previdência Complementar: Da Atuária à Contabilidade. São Paulo: Atlas S.A.
Lucas Filho, O. (2011). Seguros - Fundamentos, Formação de Preços, Provisões e Funções Biométricas. São Paulo: Atlas.
Rodrigues, J. A. (2008). Gestão de Risco Atuarial. São Paulo: Saraiva.
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