Anais do 16º International Conference in Accounting - 16º  2016
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RESUMO DO TRABALHO

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Código: 268

Área Temática: Área VIII: Tributos

Título: Desigualdade de Gênero no Mercado de Trabalho Contábil: Análise Histórica de 2007 a 2015 por Regiões Brasileiras

Resumo:
Propósito do Trabalho:
Os estudos relacionados à temática de gênero desenvolveram-se consideravelmente no mundo acadêmico nos anos 1970, juntamente com a expansão da força de trabalho das mulheres e do fortalecimento do movimento feminista (Batista & Cacciamali, 2009). No contexto brasileiro, apesar de a literatura indicar avanços rumo à equivalência de condições entre homens e mulheres no mercado de trabalho (Oliveira, Gaio & Bonacim, 2008), a igualdade de gênero está longe de ser uma realidade (Pereira & Zavala, 2012). Na área contábil poucas pesquisas sobre o tema foram publicadas até então. Contudo, estudos realizados para regiões específicas do país confirmaram a desigualdade entre os gêneros. No estado de Santa Catarina, por exemplo, Brighenti, Jacomossi e Silva (2015) identificaram que as mulheres recebem salário inferior ao dos homens, mesmo quando controlado pelo nível de escolaridade. Dessa forma, este estudo busca responder ao seguinte problema de pesquisa: qual o comportamento observado para a desigualdade de gênero no mercado de trabalho contábil brasileiro? Objetiva-se, portanto, analisar o comportamento da desigualdade de gênero presente no setor contábil para as diferentes regiões do país. Adicionalmente, visa-se identificar se, ao longo dos anos, a desigualdade de gênero para esse ramo de atividade se alterou e se o tempo de experiência consegue explicar a diferença salarial de homens e mulheres atuantes no mercado de trabalho contábil. A justificativa para a realização dessa pesquisa sustenta-se no fato de, ao se identificar a forma como a desigualdade de gênero se manifesta nas diferentes regiões do país, torna-se possível atuar na minimização das desigualdades entre homens e mulheres na área contábil.

Base da plataforma teórica:
A teoria do capital humano defende que os indivíduos são remunerados no mercado de trabalho de acordo com o investimento que eles realizam em educação, treinamento e em cuidado com a saúde. Assim, quanto maior o valor do capital humano de um indivíduo, maior a sua empregabilidade, produtividade e rendimento potencial. Contudo, essa abordagem teórica, ao priorizar a explicação do funcionamento do mercado pelo lado da oferta de mão de obra, apresenta algumas restrições. De acordo com ela, homens e mulheres seriam valorizados de forma diferente apenas em função de fatores produtivos, como a escolaridade, por exemplo, o que, empiricamente, não se tem comprovado (Santos, 2008). Nesse contexto, a teoria da discriminação estatística aparece como alternativa que considera em sua fundamentação teórica as deficiências percebidas no mercado de trabalho. De acordo com Teixeira (2008) a teoria da discriminação estatística é comumente usada como um eixo de explicação da segregação ocupacional de grupos minoritários. Para a pesquisadora, essa teoria considera que os empregadores adotam decisões de contratar com base em informações imperfeitas sobre o futuro da produtividade dos trabalhadores e, objetivando reduzir custos relacionados à má contratação, os donos do capital utilizam as características conferidas ao grupo social ao qual o indivíduo pertence para atribuir-lhe valor. Assim, tendo em vista que culturalmente as mulheres são consideradas como menos produtivas e pouco comprometidas com o trabalho, tem-se a segregação profissional de gênero (Santos, 2008, Teixeira, 2008). Adicionalmente, para Santos (2008), outra abordagem teórica capaz de explicar as desigualdades de gênero no mercado de trabalho é a teoria do amontoamento (overcrowding). Esse enfoque define que, a grande oferta de mão de obra feminina em determinadas ocupações gera uma redução salarial, independentemente dos motivos que levaram ao amontoamento de mão de obra desse grupo de indivíduos, tendo em vista a relação entre demanda e oferta de trabalho (Blau & Khan, 2007). Finalmente, Santos e Oliveira (2010) lembram que a teoria marxista gerou contribuições significativas para o desenvolvimento dos estudos feministas e do entendimento do fenômeno da desigualdade de gênero. De acordo com Santos (2008), o marxismo não valoriza apenas a ótica das oportunidades econômicas, interessando-se, também, pelas questões históricas de desigualdade ocasionadas pelo sistema capitalista. Nesse cenário, essa corrente teórica ressalta a importância, na sociedade capitalista, do controle da força de trabalho feminina na divisão sexual do trabalho, objetivando garantir o papel reprodutivo da mulher e, ao mesmo tempo, garantir a existência de um exército de reserva.

Método de investigação:
Este estudo pode ser classificado, quanto aos objetivos, como descritivo, uma vez que busca retratar o comportamento da desigualdade de gênero do mercado contábil das diferentes regiões do país. Quanto aos procedimentos de coleta de dados, o artigo classifica-se como documental, pois utiliza como base de dados as informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). Finalmente, quanto estratégica de análise de dados, o presente estudo classifica-se como quantitativo, uma vez são utilizados testes estatísticos para se alcançar os objetivos propostos pela pesquisa. Para essa pesquisa, os dados do CAGED foram coletados no mês de Janeiro de 2016. O presente estudo define como profissional do mercado contábil todos os indivíduos registrados no ramo de atividade de “Contabilidade, Consultoria e Auditoria Contábil e Tributária”, de acordo com a classificação CNAE 2.0 presente no CAGED. Ressalta-se, ainda, que não é foco desta pesquisa analisar a desigualdade de gênero dentre os profissionais contadores. Ao contrário, o estudo está interessado em analisar a eventual existência de diferenças entre homens e mulheres atuantes nas atividades anteriormente descritas, independentemente da sua formação de origem. Nesse contexto, compõe a base de dados informações dos profissionais atuantes no mercado de trabalho contábil de todas as capitais do país mais do Distrito Federal para os anos de 2007 a 2015, por gênero. As variáveis utilizadas pelo estudo são o salário médio e o tempo médio de experiência dos trabalhadores das regiões analisadas. As informações relacionadas ao salário médio foram corrigidas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado mensalmente pelo IBGE. O objetivo dessa correção é possibilitar a comparação de valores monetários de períodos diferentes, ou seja, objetiva-se descontar o efeito inflacionário existente no mercado brasileiro durante o período abrangido pelo estudo. No total, a base de dados é formada por 243 observações para os gêneros masculino e feminino. O tratamento dos dados foi composto por análises descritivas, análise de correlação e testes de médias. Para a estimação da correlação e dos testes de médias das variáveis analisadas pelo estudo, utilizou-se o software Stata12. A escolha do melhor teste de médias para as variáveis se deu após o teste a realização do teste de Shapiro-Wilk.

Resultados, conclusões e suas implicações:
A primeira evidencia alcançada pelo estudo foi a de que a diferença salarial entre homens e mulheres inseridos no mercado de trabalho contábil reduziu de 2007 para 2015 em todas as regiões do país. Essa evidência encontra respaldo na literatura e segue o comportamento observado para todo o mercado nacional. Não obstante, o resultado do teste de média não paramétrico permitiu afirmar que, mesmo em meio à melhoria verificada, as mulheres atuantes nesse ramo de atividade recebem menos que os seus pares do gênero masculino, principalmente, nas regiões Sudeste e Sul do país. Em contrapartida, a região Norte é aquela que apresenta a menor desigualdade salarial entre os gêneros sendo que, para alguns anos, o salário feminino chegou a ser maior do que o masculino. Adicionalmente, cabe destacar que mesmo para as regiões onde a desigualdade salarial apresentou maiores diferenças entre os períodos analisados, o gap de remuneração entre os gêneros foi menor do que a verificada por pesquisas anteriores realizadas para outros ramos de atividade, como a Administração, por exemplo. A diferença salarial poderia ser explicada, em parte, por fatores de produtividade, conforme define a teoria econômica ortodoxa. Contudo, no presente estudo, as análises realizadas para a variável relacionada ao tempo médio de trabalho, que é um dos fatores que interferem na produtividade, mostrou que o aumento da experiência não explicou significativamente o salário dos profissionais atuantes no setor contábil. Porém, quando se analisou o impacto da experiência por gênero foi possível notar que ela é menos significativa para o salário das mulheres do que dos homens. Além disso, a partir o teste de média realizado para a variável relacionada ao tempo médio de trabalho, foi possível constatar que homens e mulheres não apresentam diferenças estatísticas com relação ao tempo de experiência no mercado de trabalho. Nesse contexto, os resultados encontrados lançam fortes indícios de que as diferenças apuradas para todas as regiões do país devem-se, sobretudo, à discriminação sofrida pelas mulheres no mercado de trabalho. Conforme preconiza a teoria econômica heterodoxa, os empregadores atribuem valor aos indivíduos inseridos no mercado de trabalho de acordo com convenções sociais existente sobre determinados grupos. Nesse cenário, como socialmente são atribuídos valores negativos para as mulheres em relação a sua atuação no mercado de trabalho, tem-se a desigualdade de gênero como uma consequência direta de uma errônea interpretação de valor em função de preconceitos enraizados na sociedade. Tendo em vista os achados da pesquisa, sugere-se, para futuros estudos, que a desigualdade de gênero no mercado contábil seja analisada para um contexto maior de municípios brasileiros. Assim, será possível compreender se o comportamento da diferença salarial entre homens e mulheres encontrados por este estudo, que utilizou apenas informações das capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, se mantém ao se considerar uma gama maior de observações.

Referências bibliográficas:
Batista, N. N. F. & Cacciamali, M. C. (2009). Diferencial de salários entre homens e mulheres segundo a condição de migração. Revista Brasileira de Estudos de População, 26(1), 97-115. Blau, F. D. & Kahn, L. (2007). The gender pay gap: have woman gone as far as they can?. Academy of Management Perspectives, 21(1), 7-23. Brighenti, J., Jacomossi, F. & Silva, M. Z. (2015). Desigualdade de gênero na atuação de contadores e auditores no mercado de trabalho catarinense. Enfoque: Reflexão Contábil, 34(2), 109-122. Oliveira, A. R., Gaio, L. E. & Bonacim, C. A. G. (2009). Relação de gênero e ascensão feminina no ambiente organizacional: um ensaio teórico. Revista de Administração da UFSM, 2(1), 80-97. Pereira, R. S. & Zavala, A. Z. (2012). Educação e rendimentos do trabalhador no Brasil: desafio de um cenário de transformações. Si Somos Americanos Revista de Estudios Transfronterizos, 12(2), 203-227. Santos, J. A. F. (2008). Classe social e desigualdade de gênero no Brasil. Dados, 51(2), 353-402. Santos, S. M. M. & Oliveira, L. (2010). Igualdade nas relações de gênero na sociedade do capital: limites contradições e avanços. Revista Katálysis, 13(1), 11-19. Teixeira, M. O. (2008). Desigualdades salariais entre homens e mulheres a partir de uma abordagem de economistas feministas. Revista Gênero, 9(1), 31-45.

 

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